À Paisana é daqueles filmes que demoram a chegar, mas quando finalmente aparecem, deixam uma impressão difícil de ignorar. Em um cenário que ainda carece de produções LGBTQIA+ com propostas mais autorais, o longa dirigido por Carmen Emmi se destaca ao apostar em uma narrativa íntima, desconfortável e emocionalmente carregada.
Ambientado nos anos 90, o filme acompanha Lucas, vivido por Tom Blyth, um policial que atua diretamente na repressão a homens gays em espaços públicos. O que poderia ser apenas mais um retrato de opressão ganha camadas mais complexas ao revelar o conflito interno do protagonista, alguém que, ao mesmo tempo em que cumpre esse papel violento, também se sente atraído por aquilo que tenta reprimir. Essa dualidade começa a ruir quando ele conhece Andrew, interpretado por Russell Tovey, um homem mais experiente, seguro e envolto em certo mistério. A relação entre os dois se desenvolve de forma gradual, marcada por tensão, desejo e medo constante. A química é inegável, mas o que realmente chama atenção é a fragilidade emocional de Lucas, que transforma cada encontro em um campo minado psicológico.
A diretora constrói esse universo com uma linguagem visual bastante particular. O uso de imagens granuladas, referências a gravações em VHS e enquadramentos mais íntimos cria uma sensação de vigilância constante, refletindo o estado mental fragmentado do protagonista. Ao mesmo tempo, o contexto da epidemia de AIDS adiciona uma camada extra de paranoia e urgência, onde até o toque mais simples carrega peso e risco.
Narrativamente, o filme se aprofunda em temas como repressão, vergonha e sobrevivência. Há um esforço claro em mostrar como, naquele período, o afeto muitas vezes precisava existir às escondidas e como isso corroía qualquer possibilidade de relacionamento saudável. Ainda assim, “À Paisana” encontra momentos de ternura genuína, equilibrando a dureza do tema com pequenas brechas de humanidade.

No campo das atuações, Tom Blyth entrega um desempenho intenso e cheio de nuances, transitando com naturalidade entre momentos de extrema fragilidade e explosões de agressividade contida. Seu Lucas é um personagem constantemente à beira do colapso, e o ator consegue traduzir esse conflito interno de forma crua, quase desconfortável, tornando cada decisão e reação carregadas de peso emocional. Já Russell Tovey atua como um contraponto essencial, trazendo mais equilíbrio à narrativa com um Andrew carismático, seguro e envolto em uma sensibilidade que humaniza ainda mais a relação entre os dois. A dinâmica entre eles é um dos grandes trunfos do filme: quando dividem a tela, há uma tensão palpável que mistura desejo, medo e vulnerabilidade, elevando o impacto das cenas mais íntimas.
Por outro lado, nem todos os elementos narrativos alcançam o mesmo nível de consistência. As subtramas envolvendo a família de Lucas e sua ex-namorada, interpretada por Amy Forsyth, apresentam momentos interessantes e ajudam a expandir o contexto emocional do protagonista, mas acabam soando um pouco desconectadas da trama principal em determinados pontos. Falta, em alguns momentos, uma integração mais fluida que faça essas relações reverberarem com mais força no arco central.
O maior problema, porém, surge no ato final. O filme opta por um desfecho carregado de melodrama, apoiado em uma reviravolta que parece forçada dentro do universo construído até então. Essa escolha enfraquece parte do impacto emocional cuidadosamente desenvolvido ao longo da narrativa, dando a sensação de que a história abandona sua sutileza em favor de uma resolução mais convencional. Ainda assim, isso não apaga completamente a força do conjunto, mas impede que o filme alcance um nível ainda mais alto.

“À Paisana” é um filme potente, sensível e, em muitos momentos, corajoso em sua abordagem. Sua estética e suas performances elevam a experiência, tornando-o um retrato marcante sobre repressão e identidade. Ainda assim, escolhas narrativas no terceiro ato impedem que ele alcance todo o seu potencial. Mesmo com falhas, é uma obra que merece ser vista e debatida.
NOTA: 4 | de 5
★★★★☆
À Paisana chegou no Filmelier+ no dia 2 de abril
Ficha técnica:
Direção e roteiro: Carmen Emmi
Fotografia: Ethan Palmer
Montagem: Erik Vogt-Nilsen
Som: Kim Patrick
Música: Emily Wells
Design de produção: Roxy Martinez-Michaud
Elenco:
Tom Blyth, Russell Tovey, Maria Dizzia, Christian Cooke, Gabe Fazio, Amy Forsyth
Produção:
Colby Cote, Arthur Landon, Eric Podwall, Vanessa Pantley
Coprodução: Carmen Emmi, April Kelley, Alexander Wenger


