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Review | Apopia: Um Conto Disfarçado transforma um mundo fofo em uma história inquietante

É fácil subestimar Apopia: Um Conto Disfarçado em seus primeiros minutos. O visual cartunesco e a atmosfera leve sugerem uma aventura simples, quase infantil. Mas à medida que a história avança, o jogo começa a revelar camadas mais profundas, explorando questões de exclusão, repressão e autodescoberta por meio de uma narrativa repleta de simbolismo.

A trama acompanha Mai, que desperta em um lugar estranho chamado Yogurt, um reino habitado exclusivamente por coelhos, onde a existência de outras espécies é vista como algo proibido. O cenário parece curioso e quase infantil no início, mas rapidamente revela nuances mais complexas. A narrativa prefere trabalhar com sugestões e metáforas em vez de explicações diretas, convidando o jogador a interpretar os acontecimentos e conectar as peças da história por conta própria. Essa abordagem cria uma experiência mais envolvente, já que a jornada de Mai se transforma gradualmente em algo mais introspectivo. O mundo que ela explora não é apenas um ambiente fantástico, mas também um reflexo de sentimentos, memórias e conflitos internos.

Um dos recursos mais interessantes do jogo é a existência de duas realidades contrastantes. De um lado, há um mundo vibrante e quase encantado, repleto de cores vivas, cenários lúdicos e desafios que lembram páginas de um conto ilustrado. Do outro, surge uma dimensão muito mais pesada, onde a atmosfera se torna opressiva, as cores perdem intensidade, a iluminação assume tons mais frios e a trilha sonora passa a carregar uma sensação constante de tensão.

Essa mudança não serve apenas para criar contraste visual. Ela reforça o estado emocional da protagonista e ajuda a transformar o universo do jogo em uma representação simbólica da mente da personagem. Assim, cada nova área explorada acaba carregando também um significado narrativo.

A estrutura de jogo aposta em uma abordagem mais contemplativa do que competitiva. A progressão acontece enquanto o jogador atravessa cenários em perspectiva lateral, examinando ambientes, manipulando elementos do cenário e decifrando situações que pedem atenção aos detalhes. A ausência de combates tradicionais deixa claro que a experiência prioriza a exploração e a imersão no universo apresentado.

Os desafios aparecem principalmente na forma de puzzles ligados ao próprio ambiente. Em vários momentos, avançar depende de compreender como os dois mundos existentes no jogo se relacionam. Alternar entre essas realidades não é apenas um recurso visual, mas parte essencial das soluções, incentivando o jogador a observar cada cenário sob perspectivas diferentes.

Apesar do ritmo geralmente contemplativo, o jogo também surpreende em alguns momentos ao introduzir confrontos contra chefes. Em vez de batalhas convencionais, esses encontros apresentam desafios diferentes, como sequências rítmicas ou testes de precisão. Essas mudanças de ritmo ajudam a quebrar a monotonia e trazem momentos de tensão inesperados. Visualmente, o jogo se destaca por seu estilo desenhado à mão, que transmite personalidade imediata. O mundo colorido possui uma estética quase infantil, enquanto a dimensão sombria aposta em tons mais frios e iluminação dramática para criar desconforto. Essa dualidade visual reforça os temas centrais da história.

A trilha sonora acompanha bem essa proposta, alternando entre composições suaves durante a exploração e faixas mais densas nos momentos de tensão. O resultado é uma ambientação consistente que ajuda a manter o jogador imerso na experiência.

Embora Mai seja o centro da narrativa, os personagens secundários também contribuem para enriquecer o universo do jogo. Cada encontro revela um pouco mais sobre a lógica daquele mundo e amplia o contexto emocional da jornada. Aos poucos, o jogador percebe que o cenário fantástico está diretamente ligado às inseguranças e fragilidades da protagonista. Do ponto de vista técnico, o jogo apresenta desempenho estável e transições suaves entre áreas. Considerando que se trata de um projeto independente, o nível de acabamento é bastante competente e demonstra cuidado no desenvolvimento.

 

À primeira vista, Apopia: Um Conto Disfarçado pode parecer uma aventura simples, guiada principalmente por seu visual simpático. No entanto, conforme a narrativa se desenvolve, o jogo revela uma proposta muito mais profunda do que sua estética inicial sugere. Em vez de apostar em mecânicas complexas ou grandes momentos de espetáculo, a experiência se apoia na construção de atmosfera, no simbolismo e em uma narrativa que cresce gradualmente. Mesmo que o ritmo oscile em alguns trechos, o resultado final é uma jornada sensível, criativa e repleta de significado. Para quem gosta de jogos narrativos que valorizam interpretação, ambientação e puzzles bem integrados à história, é uma experiência que certamente vale a pena conhecer.

NOTA:  4 | de 5
★★★★☆

Desenvolvido pela Quillo Entertainment Limited e publicado pela Happinet, Apopia: Um Conto Disfarçado já pode ser jogado no PC através da plataforma Steam

Criador de conteúdo do ON Pop Life, é apaixonado por cinema, cultura geek e pop japonesa. Atua há mais de 10 anos na cobertura de eventos, shows e já organizou eventos de anime.