Após emocionar plateias no Japão, Kokuho – O Preço da Perfeição levou sua força estética ao cenário internacional, garantindo uma indicação ao Oscar na categoria de Melhor Maquiagem e Cabelo. Mais do que um drama histórico, o filme é uma obra de fôlego que transforma o universo do kabuki em palco para uma história intensa sobre rivalidade, devoção artística e herança. Dirigido por Sang-il Lee e baseado no romance de Shuichi Yoshida, o longa percorre cinco décadas da história japonesa sem recorrer a explicações didáticas, preferindo mergulhar o espectador em uma atmosfera densa, quase operística.
A narrativa acompanha Kikuo, filho de um yakuza que encontra no teatro uma chance de redenção, e Shunsuke, herdeiro legítimo de uma tradicional linhagem de atores da Casa de Tanba-ya. Unidos pelo treinamento rigoroso no kabuki e separados pela origem e pelas expectativas, os dois crescem sob a tutela severa de Hanjiro Hanai, interpretado com imponência por Ken Watanabe.
Quando a história avança para a fase adulta, Ryo Yoshizawa e Ryusei Yokohama assumem os papéis principais com performances magnéticas. Yoshizawa constrói um Kikuo ambicioso ao extremo, movido por uma obsessão quase febril pela perfeição artística. Ele é capaz de sacrificar laços afetivos, moral e estabilidade emocional em nome da arte. Já Yokohama entrega um Shunsuke mais introspectivo e vulnerável, cuja insegurança diante do talento do rival torna-se um dos motores dramáticos mais pungentes do filme.


O roteiro de Satoko Okudera estrutura o longa como uma saga de formação, mas também como um melodrama de bastidores. A disputa não é apenas por papéis ou aplausos, mas pela sucessão simbólica dentro da tradição. O título Kokuho que significa “tesouro nacional” carrega uma ironia delicada: o artista elevado a patrimônio cultural é também alguém condenado a deixar para trás quase tudo, exceto sua obra.
Visualmente, o filme impressiona. A direção de arte recria camarins, teatros e ambientes domésticos ao longo das décadas com riqueza histórica e sensorial. As cenas de palco são verdadeiros espetáculos dentro do espetáculo, com figurinos elaborados, maquiagem detalhada e movimentos coreografados que reforçam a dimensão ritualística do kabuki. A câmera se aproxima dos rostos pintados como se buscasse revelar o homem por trás da máscara e muitas vezes encontra apenas silêncio, tensão e desejo. A trilha sonora acompanha essa intensidade, alternando momentos grandiosos e passagens mais minimalistas. Já a montagem sustenta um ritmo majoritariamente envolvente ao longo das três horas de duração, ainda que a segunda metade ocasionalmente exagere nas reviravoltas dramáticas. Mesmo assim, o impacto emocional da narrativa permanece firme.
Kokuho é, acima de tudo, uma história sobre identidade. Sobre o que significa herdar uma tradição. Sobre o que acontece quando o talento encontra a ambição e quando o reconhecimento público não preenche as lacunas privadas. Ao retratar os onnagatas, atores especializados em papéis femininos, o filme trata a tradição com reverência, sem cair em discursos explícitos, focando na disciplina e na transcendência artística que ela exige.

Kokuho é um filme sobre o custo da grandeza. Ao retratar artistas que entregam tudo de si para alcançar um ideal quase inatingível, a obra questiona se a imortalidade artística compensa os vazios deixados na vida pessoal. Com atuações extraordinárias e uma encenação visualmente deslumbrante, o longa transforma o kabuki em metáfora universal sobre ambição e pertencimento. Não é apenas um drama histórico, é um estudo profundo sobre o que resta de um homem quando tudo o que ele constrói é sua própria arte.
NOTA: 5 | de 5
★★★★★

Kokuho – O Preço da Perfeição estreia em 5 de março nos cinemas brasileiros, em lançamento conjunto da Sato Company e da Imovision.
FICHA TÉCNICA
Direção: Lee Sang-il
Roteiro: Satoko Okudera
Produção: Shinzo Matsuhashi, Chieko Murata
Direção de Fotografia: Sofian El Fani
Direção de Arte: Yohei Taneda
Figurino: Kumiko Ogawa
Montagem: Tsuyoshi Imai
Som: Mitsugu Shiratori
Música: Marihiko Hara
Gênero: Drama
País: Japão
Ano: 2025
Duração: 174 minutos
ELENCO
Ryo Yoshizawa – Kikuo Tachibana / Toichiro Hanai
Ryusei Yokohama – Shunsuke Ogaki / Han’ya Hanai
Soya Kurokawa – Kikuo Tachibana (criança)
Keitatsu Koshiyama – Shunsuke Ogaki (criança)
Mitsuki Takahata – Harue Fukuda
Nana Mori – Akiko
Shinobu Terajima – Sachiko Ōgaki
Min Tanaka – Mangiku Onogawa
Ken Watanabe – Hanjiro Hanai
Ai Mikami – Fujikoma
Kumi Takiuchi – Ayano
Masatoshi Nagase – Gongorō Tachibana
Emma Miyazawa – Matsu Tachibana
Takahiro Miura – Takeno
Kyusaku Shimada – Umeki
Tateto Serizawa – Genkichi


