Dirigido por Robin Campillo e idealizado ao lado do falecido Laurent Cantet, Enzo surge como uma obra delicada e profundamente introspectiva sobre o turbulento processo de amadurecimento. Mais do que seguir uma estrutura narrativa tradicional, o filme se constrói como um retrato sensível e por vezes desconcertante, de um jovem que parece não encontrar seu lugar no mundo, transitando entre expectativas externas e conflitos internos difíceis de traduzir em palavras.
O protagonista, vivido pelo estreante Eloy Pohu, é um adolescente de 16 anos que, apesar de vir de uma família privilegiada, rejeita o caminho que parece já traçado para ele. Em vez de seguir a trajetória acadêmica do irmão mais velho, Enzo decide trabalhar como aprendiz em uma obra, uma escolha que gera desconforto imediato tanto em seus pais quanto entre os colegas de trabalho, já que ele claramente não se encaixa naquele ambiente. Sua presença ali é quase deslocada, como se estivesse constantemente tentando provar algo, ainda que nem ele mesmo saiba exatamente o quê. É nesse contexto que surge Vlad, um trabalhador ucraniano mais velho, cuja presença desperta em Enzo não apenas curiosidade, mas também um desejo difícil de nomear. A relação entre os dois se desenvolve de maneira sutil, quase silenciosa, baseada mais em olhares e pequenas interações do que em declarações explícitas. Essa construção reforça a confusão emocional típica da juventude, especialmente quando atravessada por questões de identidade, pertencimento e descoberta afetiva.


O filme evita respostas fáceis ou conclusões fechadas. Não há grandes reviravoltas, nem resoluções claras, e isso é parte essencial de sua proposta. Campillo e Cantet optam por observar em vez de explicar, criando uma narrativa que privilegia nuances, gestos e silêncios. Essa abordagem transforma “Enzo” em um retrato bastante honesto da adolescência, uma fase marcada justamente pela indefinição, embora também possa afastar parte do público que busca uma condução mais direta ou emocionalmente explosiva.
Visualmente, o longa aposta em uma estética naturalista, reforçando a sensação de realismo e proximidade com os personagens. O contraste entre a vida confortável de Enzo e o ambiente mais duro da construção civil evidencia o conflito de classe que atravessa toda a narrativa, um tema recorrente na filmografia de Cantet, conhecido por obras como Entre les murs. Esse embate não é tratado de forma didática, mas aparece diluído nas situações cotidianas e nas escolhas do protagonista.

As atuações são, sem dúvida, um dos grandes destaques. O elenco mistura nomes experientes com não profissionais, criando uma dinâmica crível e orgânica. Eloy Pohu sustenta o filme com uma performance contida, mas cheia de nuances, enquanto Maksym Slivinskyi, como Vlad, traz uma presença silenciosa e cativante, carregada de melancolia e humanidade. Essa combinação contribui para que a relação entre os personagens soe autêntica e envolvente.
No entanto, apesar de suas qualidades, “Enzo” por vezes adota um ritmo mais contemplativo, refletindo a própria inquietação de seu protagonista. Assim como ele, o filme está em constante busca por sentido, o que pode torná-lo menos imediato em alguns momentos, mas também reforça sua proposta introspectiva. Há passagens de grande sensibilidade e delicadeza, especialmente quando o filme se permite respirar e observar seus personagens sem pressa, valorizando pequenos gestos e silêncios carregados de significado.

“Enzo” é um filme que toca em temas profundos com delicadeza e respeito, oferecendo um olhar sincero sobre a juventude e suas contradições. Ainda que não alcance o mesmo nível de força emocional dos trabalhos mais marcantes de seus diretores, funciona como um retrato autêntico e um encerramento digno para a trajetória de Laurent Cantet.
NOTA: 4,5 | de 5
★★★★½

“Enzo” está em exibição nos cinemas brasileiros, com distribuição da Mares Filmes.
Título Original: Enzo
Direção: Robin Campillo
Roteiro: Robin Campillo, Laurent Cantet, Gilles Marchand
Elenco: Eloy Pohu, Pierfrancesco Favino, Élodie Bouchez
Distribuição: Mares Filmes
França | 2025 | 102 min. | Drama | 16 anos


