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Crítica | Cuidado com o que Deseja transforma uma ideia inusitada em um thriller angustiante

Transformar a própria casa em um cenário de sequestro para encontrar inspiração para um livro parece uma ideia inusitada, mas e se esse experimento sair completamente do controle? É a partir dessa premissa que Cuidado com o que Deseja, thriller dirigido por Ángel de la Cruz, desenvolve uma trama marcada por imprevistos, decisões desesperadas e uma crescente sensação de claustrofobia. O que deveria ser apenas uma experiência temporária para um escritor acaba se tornando uma luta angustiante para escapar de uma situação que se complica a cada instante.

A trama começa com o suicídio de um garoto, cuja mãe responsabiliza o escritor Daniel Lonces, interpretado por Jaime Lorente. A partir desse acontecimento, somos apresentados à vida do protagonista, que aparentemente conquistou tudo o que desejava: uma família, um filho pequeno e uma casa que representa a realização de um sonho. Entretanto, por trás dessa rotina tranquila, existe um homem que gosta de mergulhar profundamente nas situações extremas que cria para seus personagens.

Enquanto trabalha em seu novo romance de terror, Daniel decide experimentar na própria pele as circunstâncias enfrentadas pelo protagonista de sua história, um homem sequestrado e mantido em cativeiro. Para isso, pede à esposa, Irene, vivida por Christina Ochoa, que o amarre a uma cadeira, com os pés e as mãos presos e uma mordaça na boca. A ideia parece simples: permanecer naquela posição até a hora do almoço para compreender melhor as sensações de seu personagem.

O problema começa quando um imprevisto acontece dentro de casa. Incapaz de se libertar sozinho, Daniel percebe que está preso em uma situação que rapidamente foge de seu controle. O que deveria ser apenas uma experiência temporária para ajudá-lo a escrever se transforma em uma luta desesperada para conseguir ajuda e escapar daquele pesadelo.

Um dos maiores méritos de Cuidado com o que Deseja está na maneira como o diretor constrói o suspense a partir de uma premissa relativamente simples. Em vez de depender exclusivamente de sustos ou de uma sucessão de cenas de ação, o filme aposta na sensação de impotência do protagonista, colocando o espectador diante de um problema que parece ganhar novas complicações a cada minuto.

Com os movimentos limitados e praticamente sem recursos para pedir ajuda, Daniel precisa encontrar maneiras de contornar os obstáculos que surgem. A cadeira, que inicialmente deveria funcionar apenas como parte de sua preparação para o romance, acaba se tornando um elemento fundamental para a construção da tensão.

A situação também envolve a criança, que, por ser muito pequena, não consegue compreender completamente o que está acontecendo nem resolver o problema sozinha. Essa circunstância acrescenta uma camada de preocupação à narrativa, fazendo com que o espectador acompanhe os acontecimentos com a expectativa de que tudo termine antes que as consequências se tornem ainda mais graves.

A direção de Ángel de la Cruz consegue explorar bem esse cenário limitado, transformando ações aparentemente banais em momentos de apreensão. O filme demonstra que não é necessário apresentar uma ameaça gigantesca ou um antagonista constantemente em cena para provocar desconforto. Às vezes, basta colocar um personagem em uma situação da qual ele não consegue sair.

A atuação de Jaime Lorente é fundamental para sustentar a proposta do longa. Como Daniel, o ator precisa transmitir desespero, frustração e medo em circunstâncias nas quais o personagem tem poucas possibilidades de ação. Grande parte da experiência depende justamente de acompanhar suas tentativas de escapar e perceber como ele reage diante de cada novo problema.

A narrativa também sugere que o protagonista esconde aspectos de sua vida que não são imediatamente apresentados ao público. Conforme os acontecimentos avançam, novas informações ajudam a compreender melhor quem ele realmente é, acrescentando outras camadas à história e fazendo com que a situação inicial ganhe significados diferentes.

Esse desenvolvimento contribui para manter a curiosidade, pois o filme não se limita a mostrar um homem preso em uma cadeira. Existe também uma investigação sobre suas escolhas, suas motivações e as consequências de uma vida que talvez não fosse tão perfeita quanto parecia.

Ao mesmo tempo, o roteiro encontra algumas dificuldades para sustentar toda a lógica dos acontecimentos. Em determinados momentos, Daniel toma decisões que parecem pouco racionais, especialmente considerando a urgência da situação. Algumas alternativas que poderiam ajudá-lo a escapar são exploradas de maneira pouco convincente ou parecem ser esquecidas durante a narrativa.

Essas escolhas podem provocar questionamentos e até tirar um pouco do impacto de certas cenas. Afinal, quando o espectador começa a pensar em soluções que o próprio protagonista aparentemente ignora, fica mais difícil se envolver completamente com o perigo apresentado na tela.

Ainda assim, esse problema não chega a comprometer toda a experiência. A atmosfera criada pelo diretor e a sucessão de imprevistos ajudam a manter o interesse, mesmo quando é necessário aceitar algumas conveniências do roteiro para que a história continue avançando.

Com aproximadamente 1 hora e 16 minutos de duração, Cuidado com o que Deseja constrói seu suspense a partir de uma situação inusitada, transformando uma experiência criada para ajudar um escritor em um pesadelo claustrofóbico. A narrativa explora o medo de perder o controle e a angústia de tentar escapar de um problema que se torna cada vez mais complicado.

Apesar de algumas decisões do protagonista serem difíceis de justificar, o filme consegue transmitir o desespero de Daniel e envolver o espectador em sua tentativa de encontrar uma saída. Em determinados momentos, porém, certas escolhas do roteiro exigem que o público ignore alternativas aparentemente óbvias, o que compromete um pouco a credibilidade da história.

No geral, gostei da forma como a produção transforma uma premissa simples em uma experiência angustiante. Jaime Lorente sustenta bem o protagonismo, e a direção aproveita as limitações físicas do personagem para criar situações desconfortáveis e manter a sensação de perigo. Mesmo com algumas incoerências, Cuidado com o que Deseja é uma opção interessante para quem aprecia thrillers psicológicos e histórias que colocam seus personagens diante de situações extremas.

NOTA:  4 | de 5
★★★★☆

O longa já está disponível com exclusividade no Adrenalina Pura+.

Jornalista profissional MTB nº 0100565/SP e fundador do ON Pop Life. Especializado em Cultura Pop, Geek e Asiática, produz notícias, reviews e coberturas de cinema, games, música, animes e grandes eventos de entretenimento.