“Barba Ensopada de Sangue”, dirigido por Aly Muritiba, se apresenta inicialmente como um suspense com fortes ecos do terror clássico. A chegada de um forasteiro a uma pequena cidade litorânea, cercada por olhares desconfiados e um ambiente constantemente opressor, cria uma sensação imediata de estranhamento. Tudo parece conspirar contra ele: a casa antiga e escura, os ruídos vindos do lado de fora, os reflexos distorcidos nos espelhos sujos. Há um clima quase sobrenatural no ar, mas o filme rapidamente revela que o verdadeiro horror aqui é muito mais real.
O protagonista, interpretado por Gabriel Leone, é um homem marcado por perdas, lacunas e uma necessidade silenciosa de entender a própria origem. Após a morte do pai, ele decide viajar até Garopaba, no litoral de Santa Catarina, acompanhado apenas de sua cadela, para investigar o passado do avô, uma figura envolta em violência e mistério. O que deveria ser uma jornada de descoberta pessoal logo se transforma em um confronto direto com o apagamento coletivo.


A cidade não quer falar. Não quer lembrar. E, mais do que isso, não quer que ninguém mexa no que ficou enterrado. A rejeição ao protagonista não é sutil, ela se manifesta em olhares, em silêncios desconfortáveis e, por vezes, em ameaças explícitas. O passado do avô, tratado como algo quase demoníaco, contamina a forma como os moradores enxergam o neto. Ele não é julgado por quem é, mas por aquilo que representa. Nesse sentido, o filme constrói uma crítica interessante sobre comunidades fechadas, que se protegem através da exclusão e da violência velada.
Um dos elementos mais interessantes da narrativa é a prosopagnosia do protagonista, um distúrbio neurológico que o impede de reconhecer rostos. Mais do que uma característica curiosa, isso funciona como uma poderosa metáfora. Em um lugar onde ninguém quer revelar sua verdadeira face, ele literalmente não consegue identificar quem são as pessoas ao seu redor. Essa condição reforça o isolamento do personagem e aprofunda a sensação de insegurança constante. A direção de Muritiba é segura e consciente do tipo de história que quer contar. O ritmo é deliberadamente lento, quase contemplativo, permitindo que a tensão se construa aos poucos. Não há pressa em entregar respostas, e isso pode dividir o público. Para alguns, a narrativa pode parecer arrastada; para outros, é justamente essa escolha que torna o filme mais imersivo. O silêncio, aqui, fala tanto quanto os diálogos.
Visualmente, o longa também se destaca. A fotografia transforma o litoral catarinense em um espaço ambíguo: ao mesmo tempo belo e inquietante. O mar, que poderia simbolizar liberdade, surge carregado de peso, como se escondesse histórias que insistem em não vir à tona. A antiga casa da família, por sua vez, funciona quase como um personagem, um lugar onde passado e presente se misturam de forma incômoda.

No elenco de apoio, Thainá Duarte entrega uma Jasmin contida, mas cheia de nuances. Sua presença em cena cresce gradualmente, revelando camadas que vão além do papel de interesse amoroso. Assim como o protagonista, ela também parece carregar seus próprios silêncios e conflitos, o que contribui para a atmosfera geral de tensão emocional.
Apesar de tantos acertos, o roteiro, embora consistente, poderia aprofundar melhor alguns aspectos da narrativa. A proposta de distanciamento emocional do protagonista é coerente com sua condição e com o tom do filme, mas em alguns momentos acaba criando uma barreira para o espectador. Fica difícil se conectar plenamente com suas motivações, o que enfraquece o impacto de determinadas decisões e revelações. Há também a sensação de que algumas pontas poderiam ser mais desenvolvidas, especialmente no que diz respeito ao passado do avô.

“Barba Ensopada de Sangue” é um filme que se destaca por sua proposta. Ele não busca respostas fáceis nem grandes reviravoltas, mas sim mergulhar no desconforto, na dúvida e na construção lenta de um entendimento. É uma obra que fala sobre identidade, pertencimento e o peso das histórias que carregamos, mesmo quando não escolhemos carregá-las. Um suspense atmosférico e provocativo que aposta mais na sensação do que na explicação. Com direção firme e ótimas atuações, o filme envolve pela inquietação constante, mesmo que o distanciamento do protagonista impeça uma conexão mais profunda em alguns momentos. Ainda assim, é uma experiência marcante dentro do cinema brasileiro.
NOTA: 4 | de 5
★★★★☆

Com distribuição da O2 Play, “Barba Ensopada de Sangue” chega aos cinemas no dia 2 de abril.
Ficha Técnica
DIREÇÃO: Aly Muritiba
ROTEIRISTA: Aly Muritiba & Jessica Candal
EMPRESA PRODUTORA: RT Features
EMPRESA CO-PRODUTORA: Globoplay
PRODUÇÃO: Rodrigo Teixeira e Lourenço Sant’Anna (RT Features)
PRODUÇÃO EXECUTIVA: Monique Rocco
DIREÇÃO DE FOTOGRAFIA: Inti Briones
DIREÇÃO DE ARTE: Ana Paula Cardoso
CARACTERIZAÇÃO: Andrea Tristão
FIGURINO: Diogo Costa
SOM: Douglas Vianna
MONTAGEM: Karen Akerman
TRILHA MUSICAL: Beto Vilares e Érico Theobaldo
DESENHO DE SOM: Daniel Turini, Fernando Henna, Henrique Chiurciu
CIDADE DE REALIZAÇÃO DO FILME: Cananéia e São Paulo
ESTADO: SP
DISTRIBUIÇÃO: O2 PLAY
Mais informações no site da O2 Play.


