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Crítica | A Única Saída: O Preço da Estabilidade

Em A Única Saída (The Other Choice), Park Chan-wook parte de uma premissa absurda para revelar uma verdade incômoda: em um sistema que esmaga o indivíduo, sobreviver pode exigir atos extremos. Yoo Man-su (Lee Byung-hun) é um funcionário exemplar que, após décadas de lealdade a uma fábrica de papel, é descartado sem cerimônia. O que se segue não é apenas uma busca desesperada por emprego, mas uma escalada de violência tão inesperada quanto grotescamente cômica.

Sem espaço em um mercado cada vez mais hostil, Man-su chega à conclusão mais perversa possível: se eliminar a concorrência, a vaga será sua. A partir daí, o filme assume contornos de uma comédia sombria afiadíssima, em que assassinatos são planejados com a mesma lógica burocrática de um processo seletivo. Park conduz essa transformação com ironia e precisão, extraindo humor do desconforto e da brutalidade cotidiana.

A direção é um espetáculo à parte. Park Chan-wook demonstra, mais uma vez, domínio absoluto da linguagem visual. Cada cena é pensada para surpreender: ângulos improváveis, enquadramentos inventivos e um ritmo que oscila entre o suspense e o riso nervoso. Há sequências como a invasão doméstica embalada por música alta e soluções improvisadas, que funcionam quase como peças autônomas de cinema, misturando violência, absurdo e timing cômico com maestria.

Visualmente, o filme é deslumbrante. A fotografia de Kim Woo-hyung transforma espaços comuns em cenários de tensão constante, enquanto transições criativas e jogos de perspectiva reforçam a sensação de que estamos sempre observando algo que não deveríamos. É um cinema inquieto, curioso, que nunca se acomoda.

Lee Byung-hun entrega uma atuação extraordinária. Seu Man-su transita entre o patético e o ameaçador, o carismático e o repulsivo. É impossível não reconhecer sua dor e seu medo, mesmo quando suas atitudes se tornam moralmente indefensáveis. A degradação do personagem física, emocional e ética, reflete não apenas uma crise individual, mas um colapso de identidade masculina diante da perda de status e propósito.

Por trás do humor ácido, A Única Saída é um comentário feroz sobre o mundo do trabalho. Em tempos de automação, demissões em massa e insegurança constante, Park questiona até onde alguém pode ir quando lhe dizem que não há alternativa. A violência, aqui, surge menos como choque gratuito e mais como sintoma de um sistema que empurra seus trabalhadores para o limite.

A Única Saída é uma das obras mais afiadas e provocativas de Park Chan-wook. Um filme que diverte, inquieta e provoca reflexão ao mesmo tempo, equilibrando com precisão humor ácido, crítica social e virtuosismo técnico. Pode ser ligeiramente excessivo em duração, mas jamais perde o controle. Trata-se de um cinema popular no melhor sentido: inteligente, ousado e profundamente atual. Um lembrete incômodo e brilhante de que, às vezes, o verdadeiro horror não está nas ações do protagonista, mas no mundo que o empurrou até elas.

NOTA:  4,5 | de 5
★★★★½

O filme estreia exclusivamente nos cinemas brasileiros no dia 22 de janeiro, com distribuição da MUBI, em parceria com a Mares Filmes.

Título Original: The Other Choice | Eojjeolsuga eobsda

Direção: Park Chan-wook

Roteiro: Park Chan-wook, Lee Kyoung-mi, Jahye Lee

Elenco: Lee Byung-hun, Son Ye-jin, Park Hee-soon, Lee Sung-min, Yeom Hye-ran, Cha Seung-won, Oh Dal-su

Distribuição: Mubi | Mares Filmes

Coreia do Sul | 2025 | 139 min. | Comédia – Drama | 16 anos

Criador de conteúdo do ON Pop Life, é apaixonado por cinema, cultura geek e pop japonesa. Atua há mais de 10 anos na cobertura de eventos, shows e já organizou eventos de anime.