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Crítica | “Cinco Tipos de Medo” mergulha em histórias cruzadas marcadas por perda e vingança

Cinco Tipos de Medos se desenvolve de forma gradual, como um quebra-cabeça que só revela seu verdadeiro impacto conforme as peças se encaixam. Sob a direção de Bruno Bini, o longa aposta em uma estrutura não linear para acompanhar diferentes personagens cujas trajetórias se cruzam, unidas por experiências de perda, escolhas difíceis e reações que desencadeiam consequências profundas.

Ambientado na periferia de Cuiabá, o filme foge do eixo tradicional do cinema nacional e usa esse cenário como um dos seus grandes trunfos. A cidade não é apenas pano de fundo, mas parte ativa da narrativa, refletindo desigualdades, tensões sociais e a falta de oportunidades que moldam o destino dos personagens.

A trama acompanha cinco figuras centrais cujas trajetórias se cruzam de maneira inevitável: um jovem músico, uma enfermeira, um traficante, uma policial e um advogado, todos marcados por perdas e movidos por sentimentos que transitam entre o luto e a vingança. Entre eles, o grande destaque é Sapinho, interpretado por Xamã, que entrega um personagem complexo, violento, mas também produto de um contexto social sufocante.

O elenco é um dos grandes pilares do filme. Bárbara Colen e Rui Ricardo Diaz entregam performances carregadas de peso dramático, enquanto João Vitor Silva surge como um dos destaques, equilibrando intensidade e sensibilidade. Bella Campos também se sobressai, trazendo autenticidade à personagem, muito influenciada pelo ambiente em que a história se passa. Já Xamã chama atenção com uma atuação marcante como Sapinho, construindo um personagem ao mesmo tempo ameaçador e complexo, que ajuda a dar ainda mais força à narrativa.

A estrutura fragmentada, organizada em capítulos, é uma escolha ambiciosa que dá identidade ao filme, mas também pode gerar certo estranhamento inicial. A narrativa alterna entre diferentes personagens, tempos e pontos de vista, exigindo atenção constante do espectador para acompanhar as conexões. Em alguns momentos, essa fragmentação soa excessiva, com transições que parecem abruptas ou até confusas. Ainda assim, há um cuidado evidente na construção do roteiro, que aos poucos vai revelando como cada história se encaixa. No ato final, o filme consegue organizar essa composição e entregar uma conclusão que faz sentido dentro da proposta, recompensando quem embarca na jornada.

Se há um aspecto em que o longa apresenta oscilações, é na sua estética. Bruno Bini opta, em diversos momentos, por uma linguagem mais próxima do cinema de ação internacional, com câmera dinâmica, trilha marcante e uma abordagem mais estilizada. Embora essas escolhas ajudem a dar ritmo e tornem as cenas de ação mais impactantes, elas acabam, por vezes, afastando o filme de uma identidade mais própria e enraizada no contexto brasileiro que ele mesmo constrói tão bem em outros aspectos. Ainda assim, as sequências de ação funcionam e cumprem seu papel, especialmente quando combinadas com a carga emocional que move os personagens.

No fim das contas, Cinco Tipos de Medo encontra sua maior força quando desacelera e foca no drama. É nesse espaço mais íntimo que o filme se destaca, explorando personagens marcados por perdas profundas e incapazes de processar o luto. Essa dor mal resolvida se transforma em combustível para decisões impulsivas e ciclos de violência, criando um retrato duro, mas humano, de pessoas tentando sobreviver às próprias feridas.

Cinco Tipos de Medo se destaca pela forma como constrói um retrato humano e intenso a partir de histórias marcadas pela dor e pelas consequências das escolhas. Mesmo com uma estrutura que por vezes exige mais do espectador e com momentos de irregularidade na condução visual, o filme encontra sua força no elenco, na ambientação e na maneira sensível com que aborda o luto e a violência. É uma obra ambiciosa, que pode não ser totalmente uniforme, mas que se sustenta pela carga emocional e pela capacidade de dar voz a personagens complexos dentro de uma realidade pouco explorada no cinema brasileiro

NOTA:  4,5 | de 5
★★★★½

Cinco Tipos de Medo” está em exibição nos cinemas.

Criador de conteúdo do ON Pop Life, é apaixonado por cinema, cultura geek e pop japonesa. Atua há mais de 10 anos na cobertura de eventos, shows e já organizou eventos de anime.