Quando um novo capítulo de Resident Evil é anunciado, as expectativas inevitavelmente sobem. Afinal, trata-se de uma franquia que atravessa gerações de jogadores e que ajudou a definir o gênero survival horror como o conhecemos hoje. Desde sua estreia em Resident Evil, a série se tornou uma referência quando o assunto é tensão, exploração e narrativa dentro dos jogos de terror.
Como o nono título principal da saga Resident Evil, Requiem não tenta apenas continuar uma história que já dura décadas. O jogo também funciona como uma espécie de reflexão sobre tudo o que a franquia construiu ao longo de mais de trinta anos. Ao revisitar temas clássicos da série, ele procura entender o impacto de eventos passados e como esses acontecimentos continuam influenciando o mundo e os personagens dentro desse universo.
Desde os primeiros momentos, fica claro que o jogo não está interessado em ser apenas mais uma sequência que repete fórmulas conhecidas. Em vez disso, ele assume a responsabilidade de olhar para o passado da franquia com respeito, ao mesmo tempo em que tenta apontar caminhos para o futuro. Essa abordagem aparece tanto na narrativa quanto nas escolhas de design, que buscam equilibrar elementos clássicos do survival horror com ideias mais modernas. Nesse sentido, a própria estrutura narrativa do jogo desempenha um papel importante, ajudando a construir uma experiência que conecta diferentes gerações de personagens e acontecimentos dentro da saga.
Dois protagonistas, dois lados do terror

De um lado está Grace Ashcroft, analista do FBI que investiga uma série de mortes misteriosas no abandonado Hotel Wrenwood. Sua história é marcada pela investigação e pelo medo constante, já que o local também guarda ligações com o passado de sua mãe, Alyssa Ashcroft. Do outro lado da narrativa está o veterano Leon S. Kennedy, um dos personagens mais icônicos da franquia desde sua estreia em Resident Evil 2. Agora muito mais experiente e marcado pelos inúmeros acontecimentos que enfrentou ao longo dos anos, Leon surge em Resident Evil Requiem como um agente calejado pelas consequências do bioterrorismo. Durante o jogo, ele conduz uma investigação ligada a novas ameaças biológicas, um caso que, aos poucos, acaba se conectando diretamente ao mistério que envolve Grace Ashcroft.
Essa construção cria uma dualidade narrativa bastante interessante dentro da história. Grace representa o medo, a descoberta e a vulnerabilidade de alguém que está entrando em contato com esse universo sombrio pela primeira vez. Suas experiências são marcadas pela tensão constante, pela necessidade de entender o que está acontecendo e pelo sentimento de estar sempre um passo atrás de algo muito maior.
Leon, por sua vez, simboliza o outro lado dessa realidade. Ele carrega a experiência, a ação e as cicatrizes de quem já enfrentou esse tipo de horror inúmeras vezes. Se Grace representa uma nova geração que herdou as consequências de décadas de bioterrorismo, Leon personifica aqueles que sobreviveram ao início de tudo e continuam lutando contra ameaças que parecem nunca desaparecer. Esse contraste entre os dois personagens não apenas amplia a narrativa, como também reforça um dos principais temas do jogo: o impacto duradouro que os eventos do passado continuam exercendo sobre o presente. O resultado é uma narrativa que explora não apenas os eventos atuais, mas também o impacto geracional do desastre que começou em Raccoon City.


Um retorno às raízes da série
A trama de Resident Evil Requiem se passa aproximadamente trinta anos após a destruição de Raccoon City, um dos eventos mais marcantes de toda a franquia. Em vez de revisitar essa tragédia apenas como uma lembrança nostálgica para os fãs antigos, o jogo escolhe explorar as consequências profundas que aquele desastre deixou no mundo. A queda da cidade não foi apenas o encerramento de um surto biológico isolado, mas o ponto de partida de uma era marcada por crises globais envolvendo armas biológicas e conflitos cada vez mais complexos.
Nesse novo cenário, governos, organizações internacionais e até mesmo cidadãos comuns continuam lidando com os efeitos do bioterrorismo que se espalhou nas décadas seguintes. Instituições foram reformuladas, agências especiais foram criadas e muitos personagens carregam cicatrizes físicas e psicológicas, deixadas por anos de confrontos contra ameaças biológicas. Essa herança do passado se reflete diretamente na narrativa, que trata o horror não apenas como um perigo imediato, mas como uma consequência de decisões e experimentos que escaparam do controle humano.
Esse peso histórico dá à história um tom mais maduro e reflexivo. O jogo deixa claro que o terror presente em Requiem não surge apenas dos monstros ou das criaturas infectadas, mas também das escolhas que levaram o mundo até esse ponto. Dessa forma, a experiência narrativa vai além do tradicional objetivo de simplesmente sobreviver a inimigos, convidando o jogador a refletir sobre como décadas de manipulação biológica e interesses corporativos transformaram permanentemente o universo da série.



Jogabilidade que mistura clássico e moderno
Na parte mecânica, Resident Evil Requiem aposta em duas abordagens distintas de jogabilidade, moldadas diretamente pelos estilos e pelas experiências de seus protagonistas. Cada personagem conduz o jogador por um tipo diferente de tensão, criando um ritmo que alterna entre o terror mais puro e momentos de ação mais intensa.
As seções protagonizadas por Grace Ashcroft seguem a essência clássica do survival horror. Nesses momentos, o jogo prioriza a exploração cautelosa e a sensação constante de vulnerabilidade. A munição é escassa, os recursos são limitados e cada ambiente precisa ser observado com atenção antes de qualquer movimento. Em vez de enfrentar os inimigos diretamente, muitas vezes a melhor escolha é evitar o confronto. Grace pode se agachar para diminuir o ruído de seus passos, se esconder sob móveis ou atrás de objetos do cenário e até usar itens do ambiente, como garrafas ou outros objetos, para distrair criaturas próximas. Esse conjunto de mecânicas cria situações de tensão genuína, nas quais cada decisão abrir uma porta, atravessar um corredor ou investigar um ruído, pode significar a diferença entre escapar ou ser encurralado.
Já as partes estreladas por Leon S. Kennedy apresentam um ritmo mais dinâmico, aproximando-se da vertente de ação que também se tornou marca registrada da franquia. Como um agente experiente, Leon possui maior mobilidade e um arsenal mais eficiente para lidar com as ameaças que surgem pelo caminho. Os confrontos são mais diretos e intensos, com tiroteios que exigem reflexos rápidos e bom posicionamento. Ainda assim, o jogo evita transformar essas sequências em algo puramente explosivo; os inimigos continuam perigosos e resistentes, garantindo que o jogador nunca se sinta completamente seguro, mesmo quando está bem armado.
Outro elemento importante é a possibilidade de alternar entre a perspectiva em primeira e terceira pessoa, uma escolha que altera significativamente a sensação de jogo. Em primeira pessoa, corredores estreitos e ambientes escuros se tornam muito mais claustrofóbicos, aumentando a imersão e fazendo com que cada encontro com inimigos seja ainda mais assustador. Já em terceira pessoa, o jogador ganha uma visão mais ampla do ambiente, o que facilita a leitura do espaço e se torna especialmente útil durante sequências com maior foco em combate.
Essa combinação de perspectivas e estilos de jogo acaba criando uma experiência que dialoga com diferentes fases da franquia. A imersão e o terror mais intimista lembram a abordagem vista em Resident Evil 7: Biohazard, enquanto o combate em terceira pessoa e a movimentação mais estratégica evocam a dinâmica presente nos remakes modernos da série. O resultado é uma jogabilidade que equilibra tradição e inovação, reforçando a identidade da saga enquanto experimenta novas possibilidades para o futuro.

Mais do que apenas um novo capítulo, Requiem funciona como um elo entre diferentes fases da série. Ele respeita o terror dos primeiros jogos, incorpora a ação que marcou fases posteriores e apresenta novos personagens que podem conduzir o futuro da narrativa. A presença de Leon ajuda a conectar essas eras, enquanto Grace abre espaço para novas perspectivas dentro do universo da franquia. Essa combinação mostra que a série continua evoluindo sem abandonar sua identidade.

Resident Evil Requiem consegue alcançar algo raro para uma franquia com tantas décadas de história: respeitar profundamente o próprio passado sem ficar preso a ele. O jogo encontra um equilíbrio muito bem calculado entre nostalgia e renovação, revisitando elementos clássicos que definiram a série ao mesmo tempo em que introduz novas ideias narrativas e mecânicas que ajudam a manter a experiência fresca e relevante. Esse cuidado torna a jornada envolvente tanto para fãs veteranos da saga quanto para jogadores que estão tendo contato com esse universo pela primeira vez.
A alternância entre os dois protagonistas também contribui bastante para esse resultado. As diferentes perspectivas criam ritmos distintos dentro da narrativa, alternando momentos de terror mais psicológico e investigativo com sequências de ação mais intensas. Essa dinâmica ajuda a manter a tensão constante, enquanto a história aprofunda o impacto do bioterrorismo que moldou o mundo da série ao longo das últimas décadas.
No fim das contas, o jogo se destaca como uma experiência tensa, imersiva e surpreendentemente ambiciosa do ponto de vista narrativo. Mais do que apenas continuar a saga, ele reforça a identidade que transformou Resident Evil em um dos pilares do survival horror. Se a franquia continuar explorando esse tipo de abordagem, combinando respeito ao legado com novas ideias, o futuro da série parece tão promissor quanto assustador, exatamente como um bom Resident Evil deve ser.
NOTA: 5 | de 5
★★★★★
Resident Evil Requiem já está disponível para diversas plataformas, incluindo PC, Nintendo Switch 2, PlayStation 5, Mac e os consoles Xbox Series X and Series S.
Versão utilizada para análise | PC


