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Crítica | Manual Prático da Vingança Lucrativa equilibra humor e suspense com estilo

Produzido pela A24, Manual Prático da Vingança Lucrativa apresenta um thriller que mistura sátira social, humor ácido e suspense em uma trama centrada na obsessão por dinheiro e status. Sob direção e roteiro de John Patton Ford, o longa revisita a clássica disputa por herança com uma abordagem moderna, elegante e carregada de ironia, transformando um conflito familiar em um estudo mordaz sobre privilégio e ressentimento.

No centro da narrativa está Becket Redfellow, interpretado por Glen Powell, um herdeiro excluído de uma família bilionária que decide tomar o destino nas próprias mãos literalmente. Deserdado desde o nascimento e criado longe do luxo que considera seu por direito, Becket cresce alimentando uma mistura perigosa de frustração e ambição. Quando surge a mínima possibilidade de reverter sua posição na linha sucessória, ele passa a enxergar cada parente como um obstáculo estratégico, iniciando uma jornada marcada por assassinatos meticulosamente calculados.

O roteiro acompanha o protagonista enquanto ele executa seu plano para alcançar a fortuna avaliada em bilhões de dólares, ao mesmo tempo em que narra os acontecimentos a partir da prisão, horas antes de sua execução. Esse recurso estrutural cria uma tensão curiosa: o espectador sabe desde o início qual será o destino de Becket, mas permanece intrigado com a engenhosidade e a frieza do caminho até lá. A narrativa em retrospecto também reforça o tom cínico da obra, já que o protagonista relata seus crimes com uma naturalidade perturbadora, como se estivesse apenas descrevendo movimentos de um jogo de xadrez.

Visualmente, o filme aposta em uma estética sofisticada, com ambientes luxuosos que contrastam com a brutalidade silenciosa dos atos cometidos. A direção constrói uma atmosfera elegante, quase sedutora, que dialoga com o universo da alta sociedade enquanto expõe suas fissuras morais. A trilha sonora e a montagem contribuem para o ritmo ágil, alternando momentos de tensão crescente com passagens de humor ácido que arrancam risadas desconfortáveis.

O filme encontra força principalmente na performance de Powell, que equilibra charme, frieza e sarcasmo com naturalidade, transformando Becket em um anti-herói perversamente carismático. Ao seu lado, Margaret Qualley adiciona dinamismo à narrativa como Julia, amiga que simboliza a ganância sem filtros e funciona como catalisadora emocional e moralmente questionável da história. Já Ed Harris interpreta o patriarca da família com presença imponente, representando a arrogância e o distanciamento típicos da elite retratada no filme.

Apesar de abraçar uma lógica quase fantasiosa em alguns momentos especialmente na facilidade com que certos crimes são executados, o longa compensa com diálogos afiados e uma construção temática consistente. A violência aqui não é apenas choque; ela funciona como metáfora para discutir desigualdade, herança de privilégios e a obsessão pelo sucesso financeiro a qualquer custo. O humor ácido serve como ferramenta crítica, suavizando o peso dos acontecimentos enquanto escancara o absurdo daquela realidade.

Manual Prático da Vingança Lucrativa é um suspense estiloso que se sustenta pelo carisma de seu protagonista e pelo tom ácido que permeia a narrativa. Mesmo com algumas conveniências de roteiro, o filme envolve graças à mistura de elegância visual, crítica social e performances marcantes. No fim, entrega não apenas uma história sobre assassinatos e fortuna, mas um retrato irônico de uma sociedade onde o dinheiro fala mais alto que qualquer laço familiar.

NOTA:  4,5 | de 5
★★★★½

Com distribuição da Diamond Films, a maior distribuidora independente da América Latina, MANUAL PRÁTICO DA VINGANÇA LUCRATIVA está em exibição nos cinemas.

Criador de conteúdo do ON Pop Life, é apaixonado por cinema, cultura geek e pop japonesa. Atua há mais de 10 anos na cobertura de eventos, shows e já organizou eventos de anime.