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Crítica | A Miss transforma concursos de beleza em narrativa sobre identidade

Mais do que um filme sobre concursos de beleza, A Miss, dirigido e roteirizado por Daniel Porto, constrói uma narrativa centrada nas marcas deixadas por expectativas familiares e na busca por reconhecimento. A obra mergulha em uma dinâmica comum a muitas famílias: quando pais projetam nos filhos aquilo que não puderam viver, criando conflitos silenciosos que atravessam crescimento, identidade e afeto.

A história gira em torno de Iêda, personagem de Helga Nemetik, uma ex-participante de concursos que hoje trabalha como cabeleireira e ainda carrega o peso de um sonho interrompido. Determinada a evitar que a frustração se repita, ela passa a conduzir a vida da filha Martha, interpretada por Maitê Padilha, com disciplina quase militar, transformando concursos em meta central de sua rotina.

Esse controle excessivo se manifesta em pequenas decisões do cotidiano: alimentação monitorada, ensaios constantes e inscrições compulsivas em competições. O resultado é uma relação marcada por amor, mas também por tensão, onde a filha passa a sentir que sua individualidade é substituída pela imagem idealizada construída pela mãe.

Enquanto isso, Alan, o irmão gêmeo vivido por Pedro David, observa essa dinâmica de um lugar ambíguo. Sem cobranças diretas, ele experimenta uma liberdade aparente que, na prática, se traduz em invisibilidade emocional. O sentimento de estar à margem do afeto materno torna-se um elemento essencial para compreender suas decisões ao longo da trama.

O ponto de virada surge quando Martha descobre um segredo do irmão: Alan se veste com roupas femininas quando está sozinho. A revelação abre espaço para uma proposta inesperada, substituir a irmã em um concurso, permitindo que Martha escape da pressão e, ao mesmo tempo, oferecendo a Alan a chance de experimentar reconhecimento e atenção.

O plano, inicialmente absurdo, ganha contornos possíveis com a participação do tio Athena, personagem de Alexandre Lino. Colega de trabalho de Iêda no salão, ele assume o papel de mentor e facilitador da transformação, contribuindo para que a troca aconteça sem que a mãe perceba. A partir daí, o filme passa a alternar humor, tensão e emoção, explorando as consequências desse arranjo improvisado.

Narrativamente, o roteiro se destaca por estabelecer identificação rápida com o público. Situações exageradas surgem, mas raramente descambam para caricatura, preservando a humanidade dos personagens. O filme também demonstra sensibilidade ao tratar questões ligadas à identidade de gênero, pertencimento e sexualidade, integrando esses temas à trama sem torná-los exclusivamente didáticos.

Outro elemento relevante é o cenário. O bairro do Grajaú aparece como pano de fundo vibrante, contribuindo para a sensação de autenticidade e ajudando a ancorar a história em uma realidade reconhecível. Esse recorte territorial reforça o caráter afetivo do filme, aproximando espectador e narrativa.

No campo das performances, a química entre Maitê Padilha e Pedro David se torna um dos pilares da obra. A cumplicidade entre os irmãos sustenta tanto os momentos cômicos quanto os dramáticos, garantindo verossimilhança à proposta central do roteiro. Helga Nemetik, por sua vez, entrega uma Iêda complexa, ao mesmo tempo amorosa e sufocante, evitando simplificações que poderiam reduzir a personagem a antagonista.

Com quase duas horas de duração, A Miss opta por uma condução direta, apostando em humor acessível e emoção gradual para manter o interesse. Mesmo quando a narrativa recorre a soluções previsíveis, o filme preserva sua força ao priorizar o desenvolvimento emocional dos personagens e a construção de vínculos afetivos.

A Miss transforma uma premissa aparentemente leve em uma reflexão delicada sobre projeções familiares e descoberta de identidade. A obra equilibra entretenimento e sensibilidade, oferecendo uma dramédia que diverte, mas também provoca questionamentos sobre amor, aceitação e liberdade individual. Apesar de alguns excessos narrativos, o carisma do elenco e a honestidade emocional do roteiro garantem um resultado envolvente, um filme que encontra beleza justamente nas imperfeições humanas que retrata.

NOTA:  4 | de 5
★★★★☆

A Miss estreia nos cinemas dia 26 de fevereiro de 2026, com distribuição da Olhar Filmes

Criador de conteúdo do ON Pop Life, é apaixonado por cinema, cultura geek e pop japonesa. Atua há mais de 10 anos na cobertura de eventos, shows e já organizou eventos de anime.