Marty Supreme não se comporta como um filme esportivo tradicional e essa é justamente sua maior virtude. Dirigido por Josh Safdie, o longa transforma o tênis de mesa em um estado mental: um fluxo contínuo de excessos, provocações e colapsos morais que avançam sem pausa, como uma bolinha quicando fora de controle.
No olho desse turbilhão está Timothée Chalamet, em uma das atuações mais intensas, físicas e arriscadas de sua trajetória. Seu Marty Mauser está longe de qualquer ideal heroico, tampouco busca o charme fácil do anti-herói e se impõe como um personagem ruidoso, vaidoso e emocionalmente instável, movido pela convicção de que o mundo lhe deve aplausos. Inspirado livremente no lendário jogador Marty Reisman, o papel não se constrói como reverência, mas como uma releitura exagerada e mordaz: uma caricatura consciente de um ego em combustão constante, que Chalamet interpreta com entrega total, transformando excesso em força dramática.
A narrativa transita entre Nova York e Londres dos anos 1950 sem a preocupação de se prender rigidamente ao realismo histórico, optando por uma abordagem mais estilizada e livre. Safdie aposta no exagero consciente, no desconforto calculado e em um humor corrosivo que funciona como comentário sobre ambição, ego e desejo.
A trama gira em torno de Marty Mauser (Timothée Chalamet), um jovem ambicioso que enxerga no tênis de mesa a chance de escapar do anonimato. Vivendo na Nova York dos anos 1950, ele alimenta o desejo de se tornar um nome de destaque no esporte, mesmo sem recursos, prestígio ou caminhos claros à sua frente. Para transformar esse sonho em realidade, Marty precisa atravessar o oceano, antes disso, encontrar dinheiro, aliados e oportunidades onde eles não parecem existir. Desde o início, o filme deixa evidente que essa trajetória será marcada por obstáculos, escolhas questionáveis e excessos, com um protagonista disposto a ultrapassar limites éticos e legais para afirmar sua própria importância.
Grande parte da sensação de tensão permanente nasce do trabalho preciso de design de som. As vozes se sobrepõem aos ruídos do ambiente, disputando espaço e criando uma paisagem sonora sempre em movimento. Situações que poderiam soar banais ganham um peso inquietante graças a sons inesperado, até o canto dos pássaros assume um tom de alerta. Essa construção, sutil em sua intenção e eficaz em seu impacto, atua quase de forma inconsciente sobre o espectador, impulsionando o ritmo do filme. No terço final, a montagem acelera e a experiência se torna ainda mais intensa, reforçando a sensação de vertigem que define o longa.
O elenco de apoio não apenas acompanha o tom do filme, como o eleva com inteligência e presença marcante. Gwyneth Paltrow retorna à cena com notável elegância, compondo Kay Stone como uma figura magnética e afiada, uma mulher lúcida, espirituosa e emocionalmente complexa, que funciona como um contraponto sofisticado ao narcisismo errático de Marty. Sua atuação adiciona camadas de humor, sensualidade e consciência ao caos ao redor, roubando a cena sempre que aparece.
Já Abel Ferrara, em uma participação especial precisa e simbólica, encarna com naturalidade o espírito anárquico do filme. Sua presença carrega um peso quase metalinguístico, trazendo uma energia crua e imprevisível que dialoga diretamente com o universo de excessos e desequilíbrios proposto pela narrativa. São aparições que, longe de serem meros adornos, enriquecem o filme e reforçam seu caráter provocador e singular.

O embate esportivo assume, de maneira consciente, uma posição secundária na narrativa. O filme deixa de lado as convenções do gênero, treinamento, superação e triunfo, para esvaziar o tênis de mesa de seu significado competitivo tradicional. Em seu lugar, o esporte passa a funcionar como metáfora central: o ritmo acelerado, o vaivém constante, a incapacidade de estabelecer controle ou pausa. Marty joga da mesma forma que vive, impulsivo, caótico e reativo, conduzido mais pela urgência e pelo excesso do que por qualquer estratégia ou disciplina, o que reforça a coerência entre personagem e linguagem do filme.
Marty Supreme pode até ser intenso e excessivo, mas é justamente nesse exagero que reside sua força. O filme assume sem pudor sua natureza caótica e transforma a exaustão em linguagem, criando uma experiência vibrante, ousada e magneticamente envolvente. Josh Safdie conduz a narrativa com pulso firme, recusando qualquer forma de conforto ou previsibilidade, enquanto Timothée Chalamet se entrega por completo a um personagem arriscado, transitando com precisão entre o cômico, o patético e o trágico.
Mais do que um retrato psicológico convencional, Marty Supreme se afirma como uma viagem alucinante, pensada para ser sentida antes de ser julgada. É um cinema de imersão total, que engole o espectador e o arrasta para dentro do delírio de seu protagonista. No fim, o que permanece não é o incômodo, mas a sensação de ter atravessado algo raro: um espetáculo indomável, barulhento e vivo, que transforma a loucura em energia criativa e confirma sua potência como experiência cinematográfica singular.
NOTA: 5 | de 5
★★★★★

O longa chega aos cinemas com distribuição da Diamond Films, maior distribuidora independente da América Latina, e tem estreia marcada para 22 de janeiro.



