×

Crítica | Ato Noturno: desejo, ambição e o risco de existir à luz do palco

Dirigido e roteirizado por Filipe Matzembacher e Marcio Reolon, Ato Noturno se constrói como um drama pulsante sobre exposição, poder e desejo, ambientado em uma Porto Alegre atravessada por ambições artísticas, jogos de aparência e pulsões que nunca cabem inteiramente no espaço público.

A narrativa acompanha Matias (Gabriel Faryas), ator de uma companhia teatral famosa, que divide o palco e o apartamento com Fábio (Henrique Barreira). Os dois se preparam para estrear uma peça concebida a partir do atrito constante entre os intérpretes, um método incentivado pela diretora do espetáculo, que acredita que o conflito real potencializa a cena. Fora do palco, porém, a relação entre eles ainda é de amizade e cumplicidade, mesmo quando a competição começa a se infiltrar no cotidiano.

Esse equilíbrio se rompe com a chegada de uma diretora de elenco interessada em selecionar atores para uma grande série de televisão. O convite recai sobre Fábio, cuja imagem de conquistador se encaixa perfeitamente no perfil buscado, despertando frustração e ciúmes em Matias, que também almeja reconhecimento e projeção. A partir daí, a rivalidade silenciosa entre os dois passa a contaminar tanto os ensaios quanto a vida pessoal.

Paralelamente, Matias conhece Rafael (Cirillo Luna) por meio de um aplicativo de encontros. O que começa como uma relação casual evolui para algo mais profundo e perigoso, já que Rafael é candidato à prefeitura de Porto Alegre e mantém sua vida afetiva rigidamente escondida por medo da rejeição pública. O romance se desenvolve em um constante equilíbrio entre entrega e autopreservação, prazer e risco.

Visualmente, Ato Noturno revela o domínio formal já característico da dupla de diretores. Movimentos de câmera calculados, como zooms expressivos e planos que se aproximam gradualmente dos personagens, evocam o cinema autoral, sem jamais soar como mera citação vazia. A encenação transforma estados emocionais em linguagem cinematográfica, permitindo que o espectador experimente o mundo a partir da tensão interna dos protagonistas.

A fotografia e a direção de arte ampliam esse discurso com um uso simbólico preciso das cores. Matias surge frequentemente associado ao vermelho, nos figurinos, nos objetos pessoais, na coloração em cena que condensa erotismo, exposição e perigo. Quando o personagem tenta se adequar às expectativas do mercado, vestindo tons neutros em um teste, o gesto soa como negação de si mesmo. Ao abandonar essa camada e retornar ao vermelho, o filme explicita a impossibilidade de apagar a própria essência em nome da ascensão profissional.

As atuações sustentam esse jogo delicado entre contenção e explosão. Gabriel Faryas, em sua estreia no cinema, impressiona pela entrega física e emocional, traduzindo com precisão a inquietação de um personagem que deseja ser visto, amado e reconhecido, mas teme o preço dessa visibilidade. Cirillo Luna constrói um Rafael atravessado por contradições, enquanto Henrique Barreira oferece um contraponto marcado por vaidade, insegurança e ambição.

Ato Noturno é uma obra madura, inquietante e profundamente sensorial, que transforma relações de poder, desejo e exposição em matéria de suspense dramático. Longe de qualquer sátira, o filme mergulha nas zonas mais desconfortáveis do prazer e da ambição, revelando como o impulso de se autodestruir pode caminhar junto do tesão e da paixão. Com rigor estético, inteligência narrativa e personagens que permanecem ecoando após os créditos, Matzembacher e Reolon reafirmam seu lugar entre os cineastas mais instigantes do cinema brasileiro.

NOTA:  4 | de 5
★★★★☆

Com distribuição garantida no Brasil pela Vitrine Filmes, ATO NOTURNO será lançado nos cinemas em 15 de janeiro, através do projeto Sessão Vitrine Petrobras.

FICHA TÉCNICA

Título Original: Ato Noturno

Título Internacional: Night Stage

Ano: 2025

Idioma Original: Português

Gênero: Drama, Thriller

Duração: 117 min

Formato: DCP, 2K, Scope, Cor


Empresa produtora: Avante Filmes

Empresas co-produtoras: Vulcana Cinema

Agente de Vendas Internacional: m-Appeal

Distribuição Brasil: Vitrine Filmes

Financiamento: FSA

Laboratórios e Mercados: 18º Berlinale Co-Production Market 2021; Ventana Sur 2020 – Proyecta

Festivais: 75º Berlin International Film Festival – Panorama – World Premiere

Equipe:

Direção: Filipe Matzembacher e Marcio Reolon

Roteiro: Filipe Matzembacher e Marcio Reolon

Produção: Jessica Luz, Paola Wink, Filipe Matzembacher e Marcio Reolon

Produção Executiva: Paola Wink e Jessica Luz

Direção de Fotografia: Luciana Baseggio 

Montagem: Germano de Oliveira, EDT.

Direção de Arte: Manuela Falcão

Desenho de Som e Mixagem: Tiafo Bello 

Música Original: Thiago Pethit, Arthur Decloedt e Charles Tixier

Elenco:

Matias: Gabriel Faryas

Rafael: Cirillo Luna

Fabio: Henrique Barreira

Camilo: Ivo Müller

Larissa: Larissa Sanguiné

Pâmela Almeida: Kaya Rodrigues

Sofia Alcântara: Gabriela Greco

Dr. Otávio: Antonio Czamanski

Criador de conteúdo do ON Pop Life, é apaixonado por cinema, cultura geek e pop japonesa. Atua há mais de 10 anos na cobertura de eventos, shows e já organizou eventos de anime.