Existem filmes que conseguem provocar desconforto não apenas pelo que acontece na tela, mas principalmente pelas perguntas que continuam na cabeça do espectador depois dos créditos. “Bom Garoto”, dirigido por Jan Komasa, é um desses casos. O longa começa com elementos que fazem parecer que estamos diante de um thriller policial tradicional, mas rapidamente toma outro caminho e transforma sua história em um estudo psicológico sobre culpa, violência, família e a possibilidade de mudança.
A trama acompanha Tommy, interpretado por Anson Boon, um jovem de apenas 19 anos que leva uma vida completamente irresponsável. Drogas, festas, violência e decisões impulsivas fazem parte de sua rotina, enquanto ele demonstra pouca preocupação com as consequências de suas atitudes. O personagem é apresentado de uma maneira que dificulta bastante a criação de empatia logo nos primeiros minutos, e essa escolha é importante para tudo o que acontece posteriormente. Depois de uma noite particularmente caótica, Tommy desaparece. Quando acorda, percebe que está preso e acorrentado no porão de uma propriedade isolada em Yorkshire. A situação inicialmente parece apontar para um sequestro convencional, mas logo fica claro que seus captores não estão interessados em dinheiro ou em algum tipo de recompensa.
Quem está por trás de tudo é Chris, interpretado por Stephen Graham, um homem que acredita ter encontrado uma maneira de “consertar” o jovem. Para ele, Tommy está desperdiçando a própria vida e precisa ser submetido a uma espécie de processo de reabilitação. O problema é que Chris acredita que qualquer método é válido para alcançar esse objetivo. A partir daí, “Bom Garoto” começa a explorar uma das suas ideias mais interessantes: até onde alguém pode ir para tentar transformar outra pessoa?
Chris não se comporta como um vilão tradicional. Ele realmente acredita que está ajudando Tommy. Em determinados momentos, demonstra preocupação e assume uma postura quase paternal. Em outros, transforma-se em uma figura extremamente ameaçadora, capaz de recorrer à violência e à manipulação para conseguir aquilo que deseja.

Stephen Graham entrega uma atuação excelente e consegue fazer com que Chris seja simultaneamente assustador, convincente e, em alguns momentos, até compreensível. O ator trabalha muito bem as mudanças de comportamento do personagem, alternando entre uma falsa sensação de segurança e momentos em que fica evidente quem realmente possui o controle daquela situação. Graham consegue transmitir autoridade sem precisar transformar todas as cenas em grandes explosões emocionais. Muitas vezes, é justamente a maneira tranquila como Chris fala com Tommy que torna suas atitudes ainda mais perturbadoras.
Anson Boon também merece destaque como Tommy. O ator precisa interpretar um personagem que inicialmente parece difícil de suportar. Tommy é agressivo, irresponsável e toma decisões que fazem o público questionar por que deveria se importar com o que acontecerá com ele. No entanto, quando passa a viver confinado naquele porão, começamos a acompanhar uma transformação gradual. O medo passa a ocupar o espaço da arrogância, e a personalidade agressiva começa a revelar alguém muito mais vulnerável.
O mérito da atuação de Boon está justamente em não transformar Tommy repentinamente em uma pessoa diferente. Ele continua cometendo erros, demonstrando raiva e resistindo ao processo ao qual está sendo submetido. A mudança acontece aos poucos e de maneira bastante dolorosa.

Andrea Riseborough, no papel de Kathryn, também contribui para a atmosfera estranha da produção. Sua personagem inicialmente parece distante e quase apagada dentro daquela família, mas sua presença vai ganhando importância conforme o passado e as relações entre os moradores da casa começam a ser revelados.
Apesar de a história partir de um sequestro, “Bom Garoto” aos poucos se transforma em algo maior. O longa começa a discutir família, trauma, culpa e a necessidade que algumas pessoas sentem de controlar a vida dos outros. A própria casa onde Tommy está preso ajuda a construir essa sensação. O porão é, ao mesmo tempo, uma prisão e uma espécie de sala de aula criada por Chris. É onde ele pune Tommy, mas também tenta ensinar suas próprias ideias sobre responsabilidade e comportamento. Essa contradição está presente durante praticamente toda a produção.
Chris acredita que sofrimento pode produzir transformação. Para ele, Tommy precisa sentir as consequências de seus atos para finalmente se tornar uma pessoa melhor. Mas o filme coloca essa lógica em constante questionamento, principalmente porque os métodos utilizados pelo personagem são tão violentos quanto os comportamentos que ele pretende combater. O resultado é uma situação em que o espectador não consegue simplesmente escolher um lado.
Tommy claramente possui responsabilidade por suas próprias atitudes, mas isso não transforma automaticamente o que Chris faz em algo justificável. O filme trabalha justamente nessa área cinzenta, onde certo e errado começam a se misturar.


A direção de Jan Komasa ajuda bastante nesse processo. Em vez de explicar tudo rapidamente, o cineasta permite que o público descubra as informações gradualmente. Isso cria uma sensação permanente de insegurança, porque nunca sabemos exatamente qual será o próximo passo dos personagens. A atmosfera também é um dos pontos fortes. Os ambientes fechados, o isolamento da propriedade e a relação entre os personagens criam uma tensão constante. Nem sempre é necessário um grande acontecimento para provocar desconforto. Em algumas das melhores cenas, basta acompanhar uma conversa entre Chris e Tommy para perceber que existe algo profundamente errado naquela situação.
O filme também encontra espaço para o humor negro. Algumas situações são tão exageradas que chegam perto do absurdo, mas Komasa consegue equilibrar esses momentos com o peso dramático da história. O humor não diminui a sensação de perigo e, em determinados momentos, acaba tornando determinadas cenas ainda mais desconfortáveis. Outro ponto positivo é justamente a maneira como “Bom Garoto” evita oferecer respostas fáceis. O longa não está interessado apenas em descobrir se Tommy conseguirá escapar. A questão central é saber se uma pessoa pode realmente mudar e, principalmente, se a violência pode ser utilizada como ferramenta para provocar essa transformação.
A produção levanta perguntas incômodas sobre responsabilidade e redenção. Até onde alguém pode interferir na vida de outra pessoa para tentar salvá-la? Em que momento disciplina se transforma em abuso? E será que uma pessoa realmente muda quando é obrigada a isso ou apenas aprende a esconder melhor seus próprios comportamentos? Nem todas essas questões são exploradas com a mesma profundidade. O filme perde um pouco de força na parte final, quando algumas ideias ficam mais explícitas e determinadas motivações poderiam ter recebido um desenvolvimento maior. A conclusão também pode deixar parte do público dividida sobre o quanto a história conseguiu alcançar seus objetivos temáticos. Mesmo assim, isso não apaga o que funciona muito bem durante boa parte da produção.
“Bom Garoto” é um thriller psicológico que vai muito além da história de um jovem sequestrado. É uma obra sobre pessoas tentando controlar, corrigir e transformar umas às outras, mesmo quando os próprios métodos utilizados revelam que elas também estão profundamente quebradas.
As atuações são o principal destaque, especialmente a parceria entre Stephen Graham e Anson Boon. Graham constrói um personagem assustador justamente porque acredita estar fazendo a coisa certa, enquanto Boon consegue transmitir a transformação de Tommy sem tornar sua trajetória artificial.

No fim, “Bom Garoto” não é um filme confortável e talvez essa seja justamente uma de suas maiores qualidades. É uma produção que provoca, incomoda e deixa algumas questões sem respostas definitivas. Mesmo com uma reta final um pouco menos impactante do que o restante, consegue entregar uma experiência tensa e reflexiva.
Para mim, o longa funciona melhor quando encarado como um estudo sobre moralidade e comportamento do que como um simples thriller de sequestro. A história utiliza uma situação extrema para discutir se alguém pode realmente ser “consertado” contra a própria vontade e quais são os limites entre ajudar, controlar e destruir.
“Bom Garoto” é estranho, perturbador e, em vários momentos, bastante provocador. Não é perfeito, mas conta com atuações excelentes, uma atmosfera muito bem construída e uma premissa capaz de permanecer na cabeça do espectador mesmo depois do encerramento.
NOTA: 4 | de 5
★★★★☆

O filme Bom Garoto já está disponível para assistir no Filmelier+.


