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Crítica | Kraken: Terror no Mar navega bem, mas não mergulha fundo o bastante

Filmes de monstros costumam funcionar melhor quando entendem o poder de sua própria premissa. Em Kraken: Terror no Mar, a combinação entre Guerra Fria, submarinos, gelo e uma criatura lendária cria imediatamente uma atmosfera promissora. O longa de Nikolay Lebedev tem qualidades visíveis: escala, ambição e alguns bons momentos de tensão. Ainda assim, sua dificuldade em equilibrar o drama humano com o espetáculo marítimo impede que a produção alcance a força que sua ideia inicial sugeria.

A ambientação é, sem dúvida, um dos aspectos mais interessantes. O cenário de rivalidade militar entre potências, somado à imensidão escura do oceano, oferece um terreno fértil para uma aventura de suspense. O submarino preso sob o gelo também possui uma força visual importante: é um espaço limitado, vulnerável e isolado, cercado por uma ameaça que os personagens quase não conseguem enxergar. Quando o filme investe nessa sensação de confinamento, consegue criar cenas eficientes e transmitir a fragilidade humana diante da natureza e, principalmente, diante do desconhecido.

O Kraken surge como uma presença ameaçadora, ainda que o filme opte por revelar pouco da criatura durante boa parte da duração. A escolha tem uma lógica: ao mostrar tentáculos gigantescos destruindo embarcações ou atravessando a escuridão das profundezas, a direção tenta preservar seu caráter mítico. Em alguns momentos, a estratégia funciona bem, porque faz com que o monstro pareça maior do que aquilo que a tela consegue mostrar. Quando aparece de maneira mais clara, o design revela uma criatura imponente, capaz de justificar o medo que domina os tripulantes.

Por outro lado, essa contenção também se torna uma limitação. Um filme chamado Kraken: Terror no Mar naturalmente cria expectativa para que a criatura seja o centro da experiência, mas o roteiro frequentemente desloca o foco para conflitos pessoais que não recebem o mesmo cuidado. A relação entre Viktor e Alexandre tem potencial dramático, especialmente por envolver questões de família, lealdade e sacrifício, mas a construção é apressada em alguns trechos. O relógio utilizado como símbolo emocional é uma boa ideia, embora o roteiro pudesse dar mais peso à história compartilhada pelos dois para tornar seus conflitos mais impactantes.

O romance entre a cientista e o capitão também poderia funcionar como um contraponto humano à ameaça sobrenatural. Há uma tentativa de construir proximidade entre eles, mas faltam diálogos e situações que façam essa relação evoluir de maneira mais natural. Não chega a comprometer totalmente o filme, porém acaba parecendo um elemento menos necessário em uma narrativa que já possui muitas questões para desenvolver. Outro ponto irregular está no suspense ligado à sobrevivência. A falta de oxigênio, o risco de o submarino permanecer preso e a pressão das profundezas deveriam ser fatores constantes de urgência. O longa até sugere esses perigos, mas não os explora com a consistência necessária. Em alguns momentos, as regras da situação parecem flexíveis demais, o que reduz a sensação de que os personagens estão realmente encurralados. Com uma abordagem mais rígida desse aspecto, o filme teria encontrado uma tensão mais intensa e contínua.

Tecnicamente, Kraken: Terror no Mar entrega uma produção competente. Os cenários submarinos ajudam a criar uma escala interessante, especialmente nas sequências em que os personagens atravessam regiões congeladas ou observam o monstro pelas janelas do submarino. Os efeitos visuais não são impecáveis em todos os momentos, mas conseguem sustentar as cenas principais e oferecem imagens suficientemente marcantes para vender a dimensão da ameaça. A direção de arte também contribui para diferenciar a aventura de um simples filme de criatura, aproximando a produção de um thriller militar com elementos fantásticos.

A duração de 127 minutos, porém, pesa. Há cenas que repetem conflitos já estabelecidos e poderiam ser encurtadas para que o ritmo fosse mais firme. O filme parece mais eficiente quando se concentra na missão, na ameaça crescente e nas decisões tomadas sob pressão. Quando se perde em explicações ou repete o drama entre os personagens, o impacto diminui. Ainda assim, o último ato entrega momentos de ação que ajudam a recuperar parte da energia prometida desde o começo.

Kraken: Terror no Mar é uma aventura de monstros ambiciosa, com uma premissa muito boa e imagens que, em seus melhores momentos, aproveitam a imponência do oceano e do Kraken. Não é o terror submarino definitivo que poderia ser, nem desenvolve todos os seus personagens com a profundidade necessária, mas oferece entretenimento sólido para quem gosta de criaturas gigantes, ambientes hostis e histórias militares com um toque fantástico.

Mesmo sem aproveitar plenamente a Guerra Fria, o drama familiar e o potencial assustador de seu monstro, Kraken: Terror no Mar se mantém interessante pela atmosfera, pelo senso de escala e por seus momentos de aventura no fundo do oceano. 

NOTA: 3,5 | de 5
★★★½

Distribuído pela Synapse Distribution, Kraken: Terror no Mar estreou com exclusividade no Brasil pelo Adrenalina Pura+

Jornalista profissional MTB nº 0100565/SP e fundador do ON Pop Life. Especializado em Cultura Pop, Geek e Asiática, produz notícias, reviews e coberturas de cinema, games, música, animes e grandes eventos de entretenimento.