Em meio a tantos jogos de ação e aventura em 3D que apostam em combate, exploração, plataformas e quebra-cabeças, encontrar uma produção capaz de apresentar uma mecânica realmente diferente não é uma tarefa fácil. É justamente por isso que Fading Echo chama atenção logo nos primeiros minutos. Desenvolvido pela Emeteria, o jogo apresenta uma proposta simples, mas bastante interessante: colocar o jogador no controle de One, uma jovem capaz de se transformar em uma espécie de massa de água e manipular diferentes elementos para atravessar ambientes, resolver puzzles e enfrentar inimigos.
A ideia funciona. E, em vários momentos, funciona muito bem. A aventura acontece em Corel, um mundo fragmentado em diferentes realidades que está sendo consumido pela chamada Corrupção Paradoxal. Depois de despertar seus poderes ligados à água ao entrar em contato com uma fonte de Éter, One recebe a missão de reativar dez fontes espalhadas pelo planeta e restaurar a conexão com uma antiga inteligência artificial. O objetivo é utilizar essa energia para reiniciar o mundo e tentar eliminar a corrupção que tomou conta dele.
A narrativa inicialmente pode parecer um pouco vaga, mas vai ganhando novas camadas conforme o jogador explora as diferentes regiões de Corel. Ainda assim, é importante deixar claro que Fading Echo não coloca sua história como o principal motivo para continuar jogando. O verdadeiro protagonista da experiência é seu sistema de gameplay. E é nele que o jogo encontra sua maior força.

One possui duas formas principais: a humana e a forma aquática. Quando se transforma em uma espécie de poça de água, suas possibilidades de movimentação mudam completamente. Ela consegue passar por espaços estreitos, atravessar grades, deslocar-se rapidamente pelo cenário, carregar determinados objetos e interagir com elementos espalhados pelo ambiente.
Mas a mecânica fica realmente interessante quando One começa a absorver diferentes propriedades elementais. Ao entrar em contato com fogo, ácido e corrupção, a personagem passa a carregar essas propriedades consigo, modificando tanto sua movimentação quanto suas possibilidades durante os combates. O fogo, por exemplo, pode transformar One em vapor e permitir que ela atravesse determinados obstáculos, enquanto o ácido proporciona novas possibilidades de salto e também pode ser utilizado para aumentar o dano causado aos inimigos. Isso faz com que exploração, combate e resolução de quebra-cabeças estejam constantemente conectados. Você não está simplesmente procurando uma chave para abrir uma porta. Muitas vezes, é necessário observar o ambiente, entender qual elemento está disponível e descobrir de que maneira aquela propriedade pode ser utilizada para avançar.
Os puzzles são um dos pontos mais divertidos de Fading Echo. Boa parte deles envolve alternar entre diferentes realidades, modificando o cenário para criar novos caminhos. Uma área aparentemente inacessível em uma dimensão pode se tornar completamente diferente quando o jogador muda para outra realidade. Além disso, há desafios que exigem ativar interruptores dentro de um determinado período, manipular elementos do cenário ou combinar habilidades de One para alcançar locais específicos. O interessante é que o jogo não parece querer entregar todas as respostas imediatamente. Em vários momentos, você precisa parar, observar e pensar: “Como posso usar aquilo que tenho aqui para chegar ali?” Essa sensação de descoberta funciona muito bem e ajuda a tornar a exploração prazerosa.


O sistema de combate segue a mesma filosofia. Os inimigos podem absorver bastante dano, fazendo com que simplesmente atacar repetidamente nem sempre seja a melhor estratégia. É necessário observar suas características e descobrir qual elemento pode ser utilizado contra eles. One pode, por exemplo, empurrar inimigos para poças de ácido, lava ou outros elementos presentes no cenário. Também é possível criar situações em que um inimigo acaba sofrendo os efeitos de uma reação elemental.
Essa mecânica cria alguns momentos bastante divertidos, principalmente quando o jogador percebe que pode utilizar o próprio cenário como uma arma. Um inimigo pode ser empurrado para determinado local, outro pode ser atingido por uma propriedade elemental e uma terceira criatura pode acabar sendo afetada por uma reação provocada pelo ambiente. O problema é que Fading Echo apresenta uma ótima ideia, mas não explora essa ideia até onde poderia.
Durante as primeiras horas, existe uma sensação muito boa de descoberta. Você está conhecendo as transformações de One, aprendendo como cada elemento funciona e entendendo as possibilidades oferecidas pelo mundo. O problema é que essa sensação não evolui na mesma proporção. Depois de algum tempo, as estratégias começam a se repetir. Os inimigos não apresentam uma variedade suficiente para obrigar o jogador a reinventar completamente sua abordagem, e muitas das soluções utilizadas no início continuam funcionando praticamente da mesma maneira até o final. É como se Fading Echo tivesse encontrado uma fórmula muito interessante, mas tivesse medo de ir além dela.
Eu constantemente tive a impressão de que o jogo estava prestes a apresentar uma mecânica ainda mais ousada, uma nova transformação ou uma combinação elemental capaz de mudar completamente a experiência. Mas esse momento nunca chega de maneira tão significativa quanto eu gostaria. Isso é particularmente perceptível porque a própria proposta do jogo permite imaginar possibilidades enormes.
A direção de arte combina ambientes mais neutros com efeitos elementais bastante vibrantes, criando um contraste que funciona muito bem. Os efeitos de fogo, água, ácido e corrupção ganham bastante destaque na tela e ajudam a reforçar a identidade visual da produção. O mundo fragmentado de Corel também combina perfeitamente com essa proposta. As diferentes realidades ajudam a criar cenários visualmente distintos e reforçam a sensação de estar explorando um planeta que literalmente está se desfazendo. Não é um jogo que tenta competir pelo realismo. Sua força está justamente em apresentar uma identidade visual própria, estilizada e colorida.
E aqui está uma surpresa que merece ser destacada: a dublagem é excelente. A localização em português contribui bastante para a experiência, principalmente porque não parece apenas uma camada adicionada ao jogo. As interpretações ajudam a dar personalidade aos personagens e tornam os momentos narrativos muito mais naturais. Para um jogo independente como Fading Echo, encontrar uma dublagem tão bem executada é algo que merece reconhecimento.
As vozes combinam com os personagens, as interpretações conseguem transmitir emoção e a sincronização contribui para que os diálogos não quebrem o ritmo da aventura. Isso é especialmente importante em um título no qual a história não é necessariamente o seu elemento mais forte. Uma boa dublagem ajuda a tornar os personagens mais interessantes e faz com que o jogador se envolva mais com aquilo que está acontecendo. Se você pretende jogar Fading Echo, recomendo fortemente experimentar a dublagem em português. É um daqueles casos em que a localização acaba se tornando parte importante da experiência e merece ser valorizada.
A ideia de controlar uma personagem capaz de se transformar em água e absorver diferentes propriedades elementais é excelente. A combinação dessa mecânica com exploração, plataformas, quebra-cabeças dimensionais e combate cria uma experiência bastante agradável. Os primeiros momentos são especialmente interessantes, porque existe aquela sensação de descoberta constante: “O que será que consigo fazer com esse elemento?” O problema é que, conforme a aventura avança, essa pergunta aparece cada vez menos. O jogo encontra sua identidade rapidamente, mas não consegue expandi-la na mesma velocidade. Faltam mais variedade, desafios mais criativos e situações que realmente coloquem todas as habilidades de One à prova. Ainda assim, isso não significa que Fading Echo seja uma experiência ruim. Muito pelo contrário. É um jogo divertido, bonito, criativo e com uma mecânica central que funciona muito bem. Além disso, a excelente dublagem em português, o visual estilizado e os puzzles baseados na manipulação dos elementos ajudam a tornar a aventura ainda mais agradável.
Fading Echo é aquele tipo de jogo que termina deixando uma sensação curiosa: você gostou do que jogou, mas fica pensando no quanto ele poderia ter sido ainda melhor se tivesse levado suas próprias ideias um pouco mais longe.

No fim, Fading Echo é uma experiência que deixa uma impressão bastante positiva, principalmente pela criatividade de sua proposta e pela maneira como transforma seus elementos em ferramentas para explorar, lutar e solucionar desafios. O jogo sabe ser divertido e tem personalidade própria, além de contar com uma dublagem em português que é, sem dúvida, um dos seus maiores acertos.
O que impede a aventura de alcançar um patamar ainda maior é justamente aquilo que mais chama atenção nela: suas ideias. Fading Echo apresenta conceitos com muito potencial, mas termina antes de conseguir explorá-los completamente. A campanha poderia ser mais longa, os desafios poderiam evoluir mais e suas mecânicas poderiam ganhar novas possibilidades ao longo da jornada.
Ainda assim, é difícil terminar o jogo sem reconhecer o carinho colocado em sua construção. Fading Echo não reinventa o gênero, mas encontra uma identidade própria dentro dele e entrega uma aventura leve, criativa e bastante divertida. É uma ótima pedida para quem gosta de descobrir jogos diferentes e, principalmente, para quem aprecia experiências single-player que valorizam exploração e experimentação.
NOTA: 4 | de 5
★★★★☆

Desenvolvido pela Emeteria e publicado pela New Tales e Com2uS Holdings, Fading Echo já está disponível para PC, via Steam e Epic Games Store. As versões para PlayStation 5 e Xbox Series X|S estão previstas para chegar ainda em 2026.
Versão utilizada para análise | PC



