A trajetória de um brasileiro que conquistou espaço entre os grandes nomes do cinema internacional, mas acabou sendo pouco lembrado em seu próprio país, ganha destaque nas telonas. O documentário Cavalcanti, dirigido por Jairo Neto e Graubi Garcia, terá sua estreia mundial na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que acontece entre os dias 15 e 29 de outubro de 2026.
Produzido pela Animal Filmes, o longa apresenta ao público a história de Alberto Cavalcanti (1897–1982), cineasta nascido no Rio de Janeiro que desempenhou um papel importante na transformação da linguagem cinematográfica. Sua carreira atravessou diferentes países e movimentos artísticos, deixando contribuições significativas para o desenvolvimento do cinema documental e de ficção.
Ao longo de sua trajetória, Cavalcanti participou de mais de 110 produções cinematográficas, trabalhando na França, Inglaterra, Brasil, Alemanha e Israel. Entre suas experiências mais marcantes estão a colaboração com Jean Renoir, sua passagem pela indústria britânica durante o período em que Alfred Hitchcock também atuava no país e a codireção do clássico de terror Dead of Night, considerado pelo cineasta Martin Scorsese um dos filmes mais assustadores já realizados.
Sua importância também está diretamente relacionada ao desenvolvimento dos documentários britânicos. Depois de participar da vanguarda cinematográfica francesa durante a década de 1920, Cavalcanti estabeleceu-se em Londres, onde integrou o GPO Film Unit, departamento de produção audiovisual dos Correios britânicos que se tornou referência na criação de documentários.
O brasileiro chegou a assumir a direção da unidade, que posteriormente daria origem ao Crown Film Unit, responsável pela produção de filmes oficiais do governo britânico durante a Segunda Guerra Mundial. Outro momento importante de sua carreira aconteceu nos Ealing Studios, onde trabalhou sob a liderança do produtor Michael Balcon e dirigiu produções como Went the Day Well?.
Apesar do reconhecimento internacional, seu retorno ao Brasil na década de 1950 foi marcado por dificuldades. Com o objetivo de contribuir para a construção de uma indústria cinematográfica nacional, Cavalcanti enfrentou obstáculos relacionados a disputas internas, preconceito e perseguições políticas. Esses acontecimentos contribuíram para que sua trajetória fosse gradualmente deixada de lado nos registros históricos do cinema brasileiro.
Para recuperar essa memória, os diretores realizaram uma extensa pesquisa que resultou na reunião de mais de 500 materiais de arquivo, incluindo documentos, registros audiovisuais e entrevistas inéditas com o próprio cineasta.

Um dos diferenciais do documentário é justamente permitir que Cavalcanti participe da reconstrução de sua história por meio de sua própria voz. A proposta vai além de apresentar os principais acontecimentos de sua carreira, buscando compreender os motivos que levaram um artista tão influente a permanecer relativamente desconhecido no Brasil.
A estreia também apresenta uma ligação histórica com a cidade de São Paulo. Em outubro de 1953, Cavalcanti realizou no Museu de Arte de São Paulo (MASP) a apresentação mundial de O Canto do Mar, uma de suas últimas produções brasileiras antes de retornar à Europa. Agora, mais de sete décadas depois, sua trajetória volta a ganhar destaque na capital paulista durante o mesmo mês.
O documentário conta com o apoio da Cinemateca Brasileira e do British Film Institute (BFI), instituições responsáveis pela preservação de importantes registros da carreira do diretor.
Selecionado pelo ProAC SP 2023, o projeto também participou de diferentes iniciativas de desenvolvimento e encontros do setor audiovisual, incluindo DocLab Coimbra 2026, RIO2C, DocSP, Sunny Side of the Doc e LatAm Content Meeting. Antes de sua conclusão, o longa foi apresentado na seção Work in Progress da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 2025, ocasião em que recebeu uma menção honrosa.
Estreia e sessões na Mostra de São Paulo
A primeira exibição de Cavalcanti está marcada para domingo, 18 de outubro, às 16h30, no Cinesystem Belas Artes – Frei Caneca 1.
O público também poderá conferir o documentário em outras duas sessões:
20 de outubro, às 13h30: Espaço Petrobras de Cinema – Sala 1.
26 de outubro, às 17h: Cine Belas Artes – Sala 1.
Os cineastas paulistas Jairo Neto e Graubi Garcia desenvolvem trabalhos voltados principalmente aos documentários de arquivo e às narrativas ensaísticas. A dupla já havia trabalhado em conjunto em Narrativas do Pós (2021), produção que conquistou o prêmio de Melhor Roteiro no Festival Guarnicê e o de Melhor Documentário no FIXION Fest, realizado no Chile.
Com Cavalcanti, os realizadores apresentam seu primeiro longa-metragem, trazendo ao público uma oportunidade de conhecer a vida e a obra de um brasileiro que ajudou a transformar o cinema intern

Horários de exibição – “Cavalcanti”, de Jairo Neto e Graubi Garcia
18/10 – 16:30 – CINESYSTEM BELAS ARTES FREI CANECA 1
20/10 – 13:30 – ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 1
26/10 – 17:00 – CINE BELAS ARTES SL 1 LEON CAKOFF
Ficha técnica
Direção: Jairo Neto e Graubi Garcia
Produção: Guilherme Severo e Jairo Neto
Roteiro: Jairo Neto e Graubi Garcia
Argumento: Natália Pucci Vestri
Montagem: Graubi Garcia
Trilha sonora: Pedro Vituri
Produtora: Animal Filmes | Produtora associada: The End
Apoio: Cinemateca Brasileira e BFI (British Film Institute)
Duração: 100 min | País: Brasil | Idiomas: português, inglês e francês


