Livros continuam sendo os protagonistas, mas caminhar pela 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo mostrou que a experiência oferecida pelo evento já vai muito além das tradicionais prateleiras das livrarias. Mangás, quadrinhos, adaptações para o audiovisual, personagens conhecidos da cultura pop e espaços de encontro entre fãs e artistas ajudaram a formar uma edição que conversou diretamente com uma nova geração de leitores.
Realizada no Distrito Anhembi, a Bienal chegou ao fim em 13 de setembro estabelecendo um novo recorde: foram 760 mil visitantes durante dez dias, acima dos 722 mil registrados em 2024. O evento ocupou uma área total de 87 mil m², crescimento de 28% em comparação com a edição anterior.
A dimensão também apareceu nos números do mercado editorial. Foram 269 expositores, 800 autores e aproximadamente 3,65 milhões de livros colocados à disposição do público. Mais da metade dos visitantes entrou gratuitamente e, de acordo com levantamento realizado pela organização junto aos expositores, o faturamento médio diário ficou 57% acima do registrado na edição anterior.
Mas números contam apenas parte da história. Para quem esteve pelos corredores do Anhembi, um dos aspectos que mais chamaram atenção foi justamente a presença do público jovem e os mangás tiveram papel importante nisso.

Editoras como JBC, Panini, NewPOP, Taverna do Rei e Universo dos Livros ajudaram a aproximar ainda mais a Bienal do universo que encontramos normalmente em grandes eventos de cultura pop. Um exemplo do tamanho desse mercado apareceu nos resultados do Grupo Companhia das Letras. A JBC terminou a Bienal como o segundo selo do grupo em quantidade de exemplares vendidos, ficando atrás somente da própria Companhia das Letras. No balanço divulgado após o evento, o grupo informou crescimento de 67% no faturamento e de 55% no número de exemplares comercializados em relação a 2024.
Entre os títulos da JBC disponíveis no evento estava o volume 22 de Haikyu!!, responsável por concluir a publicação brasileira do mangá. A reta final possui ainda uma curiosidade especial para os fãs daqui: parte dos acontecimentos leva seus personagens ao Brasil. Outro ponto positivo foi encontrar diferentes mangás da editora sendo vendidos por R$ 20. Em um mercado no qual acompanhar séries completas pode representar um investimento considerável, promoções desse tipo tornam a experiência mais convidativa, principalmente para leitores mais jovens.
E não era necessário procurar muito para encontrar preços menores. Além das promoções oferecidas diretamente pelas editoras, havia espaços com livros vendidos na faixa dos R$ 10 e R$ 20. O sistema de cashback relacionado ao ingresso também servia como incentivo adicional para transformar a visita em oportunidade de levar alguma leitura para casa.

A NewPOP também teve uma participação especial na cobertura do ON Pop Life durante a Bienal. Como parte da parceria com o site, a editora disponibilizou 30 ingressos cortesia, que puderam ser distribuídos entre leitores, amigos e parceiros do ON Pop Life, ampliando a oportunidade de diferentes pessoas acompanharem de perto esta edição do evento.
A iniciativa foi uma maneira muito bacana de aproximar não apenas a editora e o ON Pop Life, mas também quem acompanha o nosso trabalho. Afinal, uma cobertura de evento não precisa ficar restrita ao que mostramos em matérias, fotos e redes sociais: neste caso, a parceria também permitiu que parte do nosso público pudesse viver pessoalmente a experiência da Bienal.

Dentro do evento, a NewPOP apresentou um catálogo que mostrou justamente a variedade que encontramos atualmente entre mangás, webtoons, produções nacionais e outras formas de histórias ilustradas. Entre os lançamentos de setembro estavam Your Letter, webtoon sul-coreano totalmente colorido publicado em volume único; a produção nacional A Garota da Noz, também em cores; e Um Gay de 30 Anos, obra autobiográfica apresentada no formato de mangá.
A participação da editora também acabou envolvida em um dos episódios mais comentados da Bienal. Durante uma vistoria, parte da capa de Define The Relationship e uma imagem utilizada no estande foram cobertas após uma orientação da organização. A utilização de fita sobre a ilustração rapidamente repercutiu nas redes sociais e provocou críticas.
Posteriormente, a Bienal declarou à imprensa que a orientação estava relacionada à identificação externa de uma publicação destinada ao público maior de 18 anos. A NewPOP, por sua vez, afirmou ter sido surpreendida pela solicitação.
O episódio abriu uma discussão que certamente merece atenção em futuras edições sobre como obras destinadas ao público adulto são sinalizadas e apresentadas dentro de um evento frequentado por leitores de diferentes idades.

A Panini Comics também aproveitou a Bienal para apresentar novidades. Os fãs de One Piece puderam encontrar o calendário de 2027 da franquia, enquanto o universo criado por Mauricio de Sousa ganhou um lançamento diferente. Biduzidos chegou oficialmente ao público como a primeira revista dedicada aos animais da MSP Estúdios. Bidu, Mingau, Floquinho e outros personagens que ganharam destaque na animação passaram para as páginas em histórias construídas principalmente por imagens e com poucos diálogos.
Essa mistura entre diferentes gerações e maneiras de consumir histórias esteve presente em vários pontos do evento. De um lado estavam personagens conhecidos há décadas; do outro, webtoons, mangás e obras que conquistaram leitores originalmente por meios digitais.
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Uma das novidades que mais aproximou a Bienal dos eventos tradicionais de cultura pop foi a criação da Alameda dos Artistas. O espaço colocou quadrinistas brasileiros em contato direto com os visitantes, permitindo conhecer trabalhos, conversar com seus criadores e adquirir publicações. Sua presença dentro da Bienal, entretanto, foi especialmente bem-vinda. Em vez de deixar os quadrinhos restritos aos grandes estandes editoriais, a Alameda abriu espaço para quem está diretamente envolvido na criação dessas histórias. É uma iniciativa que merece não apenas retornar, mas crescer nas próximas edições.
A aproximação com a cultura pop não ficou limitada aos quadrinhos. Cinema e streaming apareceram constantemente pelos corredores, principalmente por meio de obras que ganharam ou ainda receberão adaptações.
Raphael Montes, por exemplo, apresentou A Estranha na Cama, novo suspense do escritor que já possui uma adaptação em desenvolvimento pela Netflix. A Rocco explorou essa ligação de maneira ainda mais visual. Seu espaço dedicado a livros relacionados ao cinema e ao streaming buscou inspiração nos antigos cinemas de rua e contou até mesmo com uma réplica do famoso ônibus roxo relacionado ao universo de Harry Potter. Já a Universo dos Livros levou publicações associadas a franquias e propriedades bastante conhecidas do público geek, incluindo Star Wars, Stitch e Twisted Wonderland, além da popular série literária Estilhaça-me.
São exemplos de como as fronteiras entre leitor, espectador e fã estão cada vez menores. Muitas pessoas descobrem um livro depois de assistir a uma adaptação; outras fazem exatamente o caminho contrário.
Além dos grandes estandes, a edição reservou um espaço especial para a Espanha, país convidado de honra em 2026. Com aproximadamente 500 m² e a participação de 50 autores, a área foi projetada como uma grande biblioteca dentro do evento. Em meio ao movimento intenso dos corredores, o ambiente oferecia outra experiência: parar, conhecer escritores e descobrir um pouco mais da produção literária espanhola.
A programação ainda tentou explorar novas maneiras de viver a literatura. Houve atividades noturnas destinadas ao público adulto e até uma Rave Literária, cuja proposta começava com uma experiência de leitura silenciosa para depois estimular conversas e recomendações entre os participantes.
Foto: Orlando Naninho
A edição de 2026 mostrou que a Bienal do Livro de São Paulo está conseguindo acompanhar as mudanças na maneira como o público se relaciona com a leitura. O livro permanece no centro do evento, mas já não precisa estar isolado de tudo aquilo que existe ao seu redor.
Para o ON Pop Life, que acompanha de perto mangás, animes, cinema, séries e cultura japonesa, foi especialmente interessante perceber como esses universos ocuparam espaço naturalmente dentro da Bienal. Mangás não estavam presentes apenas como mais alguns produtos nas prateleiras: eles movimentaram editoras, atraíram jovens e mostraram sua força comercial. A Alameda dos Artistas também foi uma ótima adição e ajudou a dar à Bienal uma dinâmica que encontramos em eventos como Anime Friends e CCXP, mas sem fazer com que ela perdesse sua identidade literária.
Naturalmente, existem pontos que podem ser aprimorados. O caso envolvendo Define The Relationship, por exemplo, mostrou a importância de estabelecer regras claras e bem comunicadas para publicações destinadas ao público adulto, evitando situações que possam ser interpretadas como censura ou gerar conflitos desnecessários entre organização, editoras e visitantes.
No conjunto, porém, nossa experiência foi bastante positiva. Encontramos uma Bienal enorme, movimentada e diversificada, na qual era possível sair de um lançamento literário, descobrir um novo mangá, conversar com um quadrinista e poucos minutos depois encontrar uma obra relacionada a um filme, anime ou série.
Os 760 mil visitantes ajudam a dimensionar o sucesso desta edição, mas talvez o resultado mais importante esteja justamente no perfil desse público. Ver tantos jovens circulando pelos corredores, procurando mangás, livros e novas histórias mostra que o interesse pela leitura não desapareceu, ele apenas ganhou novas portas de entrada. E, se a Bienal continuar sabendo abrir essas portas sem abandonar aquilo que a tornou um dos principais eventos literários do país, a aproximação entre literatura e cultura pop tem tudo para se tornar uma característica cada vez mais forte das próximas edições.
O ON Pop Life agradece imensamente à organização da Bienal Internacional do Livro de São Paulo pelo convite para a cobertura da 28ª edição do evento, assim como por todo o suporte, atenção e parceria durante esses dias. Foi um prazer acompanhar de perto mais uma edição da Bienal e compartilhar com nossos leitores um pouco de tudo o que encontramos por lá. Nos vemos na próxima edição!
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